Queda de 13,88% na bolsa não mede a legitimidade da eleição
O Ibovespa caiu 13,88% após a reeleição de Lula, mas o preço das ações mede expectativas de retorno, e não a legitimidade do voto.
TribunaEsta é uma análise assinada na Tribuna. O argumento pertence ao autor e não representa necessariamente a posição do Jornal Brasil Profundo.

Às 17h15 desta segunda-feira (26), o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos. O Ibovespa é o principal índice da B3, a bolsa de valores do país. Às 17h02, o dólar à vista, aquele com pagamento imediato, subiu 8,21%, para R$ 5,4029, segundo o Money Times.
A reação veio um dia depois da eleição. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), citado pelo Times Brasil. Este jornal defende que a queda da bolsa não decide quem governa.
O circuit breaker, uma trava automática da B3, parou os negócios no começo do pregão. Segundo o Money Times, ela foi acionada por queda de mais de 10%, e a negociação ficou suspensa por 30 minutos.
Um preço mede expectativa, não voto
O preço de uma ação junta o que cada investidor espera ganhar no futuro. Quem acerta ganha, e quem erra perde. É uma aposta com dinheiro, não uma votação. Nenhum desses cálculos conta eleitor.
O mercado também estava posicionado para outro resultado. Segundo a agência Reuters, citada pelo InfoMoney, ele “havia se posicionado para uma vitória do senador Flávio Bolsonaro no segundo turno”. Parte da queda é, portanto, a correção de uma aposta que não se confirmou. Essa leitura é nossa, não um dado oficial.
Quantos brasileiros estão nessa aposta? Poucos. A B3 informou, em comunicado de 25 de agosto de 2026, que a base de investidores em renda variável chegou a 5,6 milhões de pessoas no segundo trimestre. Renda variável são aplicações cujo valor sobe e desce, como ações. Com 214,2 milhões de habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), isso equivale a cerca de 2,6% do país. Esse cálculo é nosso.
O que diz a B3: no comunicado de 25 de agosto de 2026, a bolsa descreve um investidor “mais participativo”, com base de 5,6 milhões de pessoas em renda variável. A redação não consultou a B3 para este texto; a posição vem da nota publicada.
O argumento do mercado: a conta fiscal
O mercado tem uma preocupação que merece resposta. Analistas ouvidos pelo InfoMoney apontam para as contas do governo. O economista Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, citou a continuidade dos déficits primários, quando o governo gasta mais do que arrecada sem contar os juros, e a trajetória da dívida pública.
Fábio Murad, da Wiser Asset, ligou o tema à compatibilidade entre promessas de campanha e o controle da dívida. A crítica é séria, e este jornal não a trata como má-fé. Ela é, porém, um debate sobre o Orçamento, que o governo propõe e o Congresso vota.
A economia real mostra outro quadro. Segundo o IBGE, a taxa de desocupação ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026. O rendimento médio real foi de R$ 3.777, alta de 3,7% sobre o mesmo período do ano anterior. Os dados vêm da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), que entrevista famílias para medir emprego e renda.
Esses números não provam que o governo acerta na economia. Eles mostram, porém, que o emprego e o salário da maioria não se movem com o pregão de uma segunda-feira.
O que isso significa
A queda pode se aprofundar, ou reverter se o governo apresentar um plano fiscal crível. Thomas Haugaard, gerente de portfólio da Janus Henderson, disse ao InfoMoney que o mercado precisa de “um caminho credível de estabilização da dívida”.
Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Este texto não recomenda compra nem venda de nenhum ativo. O resultado foi decidido nas urnas, com 64.256.232 votos para Lula, segundo o InfoMoney.
A bolsa mede expectativas de retorno, e isso é útil para quem investe. Ela não é um placar da democracia. Este jornal defende que a eleição se avalie pelo voto, pelas contas públicas e pelos serviços que chegam à população.
Como fizemos: Usamos o fechamento e as atualizações do InfoMoney de 26/10/2026, o Money Times (fechamentos às 17h02 e 17h15), o Times Brasil (resultado divulgado com dados do TSE), o comunicado da B3 de 25/08/2026, a população estimada pelo IBGE para 1º de julho de 2026 (divulgada pelo Poder360) e a reportagem sobre a PNAD Contínua de 29/09/2026, todos acessados em 26/10/2026. O cálculo de 2,6% é nosso: 5,6 milhões dividido por 214,2 milhões. Não conseguimos abrir as páginas do IBGE nem da B3 diretamente, por isso os dados vêm de reportagens e comunicados citados. As falas de analistas vêm do InfoMoney, que as transcreveu em atualizações ao vivo. A B3 fala em “pessoas”, e não em CPFs.
Fontes
- Ibovespa hoje: bolsa de valores ao vivo, 26/10/2026 — InfoMoney (acesso em 26/10/2026)
- Tempo real: Ibovespa afunda 13% com vitória de Lula após circuit breaker — Money Times (acesso em 26/10/2026)
- Com reeleição de Lula, Ibovespa derrete quase 14% e pregão tem circuit breaker — Times Brasil (acesso em 26/10/2026)
- Perfil do investidor, notícias da B3 (inclui o comunicado de 25/08/2026) (acesso em 26/10/2026)
- Brasil chega a 214,2 milhões de habitantes em 2026, diz IBGE — Poder360 (28/08/2026)
- Taxa de desemprego fica em 5,3% no trimestre até agosto, revela IBGE — Acessa (29/09/2026)



