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Temporais exigem Defesa Civil permanente e Estado presente

Danos em SC, RS e Paraná mostram que socorro emergencial precisa vir acompanhado de prevenção, equipes e investimento público.

TribunaEsta é uma análise assinada na Tribuna. O argumento pertence ao autor e não representa necessariamente a posição do Jornal Brasil Profundo.

Agentes participam de simulado de resgate durante treinamento para enchentes
Simulado de enchente em São Luiz do Paraitinga (SP), em 2019, mostra treinamento preventivo da Defesa Civil.Foto: Governo do Estado de São Paulo / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Os temporais desta semana deixaram um retrato claro da vulnerabilidade das cidades brasileiras. Santa Catarina registrou 106 municípios atingidos e duas mortes até quinta-feira (5). No Rio Grande do Sul, o balanço de quarta (4) apontava 102 cidades e 6.373 casas danificadas.

A prioridade imediata é salvar pessoas e garantir abrigo, água e alimentos. Mas a resposta não pode terminar quando os rios baixam. O Brasil precisa tratar proteção e Defesa Civil como serviço público permanente, com equipes, planejamento e orçamento antes da tragédia.

Socorro urgente não substitui prevenção

O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) reuniu técnicos com a Prefeitura de Chapecó. A cidade ainda não havia pedido reconhecimento federal de emergência. Esse detalhe revela uma rotina decisiva: decretar emergência no município não faz o dinheiro federal chegar automaticamente.

A cidade precisa documentar danos, apresentar plano de trabalho e aguardar análise. O procedimento é necessário para controlar recursos públicos. Também exige capacidade técnica de prefeituras que, muitas vezes, enfrentam a destruição com estruturas administrativas pequenas.

Danos se espalham por dezenas de cidades do Sul Balanços oficiais de 4 e 5 de novembro; datas diferem entre os estados

Estado Municípios atingidos Residências danificadas Pessoas fora de casa
Santa Catarina 106 5.358 308
Rio Grande do Sul 102 6.373 327

Fontes: MIDR e Agência Brasil. Os números são preliminares e não devem ser tratados como levantamento simultâneo.

Os dados não medem apenas o tamanho de um temporal. Eles mostram a dimensão territorial da resposta necessária. São moradias, escolas, estradas e serviços distribuídos por centenas de administrações. Nenhuma prefeitura deveria organizar sozinha essa recuperação.

O apoio federal e estadual precisa chegar com rapidez e regras claras. Ao mesmo tempo, as três esferas devem investir em drenagem, monitoramento, habitação segura e retirada planejada de famílias de áreas de risco. Reconstruir no mesmo ponto, sem corrigir a vulnerabilidade, prepara a próxima emergência.

Recuperar empresas também exige política pública

O Paraná anunciou R$ 175 milhões em crédito para empresas atingidas. O pacote combina R$ 100 milhões do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul e R$ 75 milhões da Fomento Paraná. Há uma linha de R$ 50 milhões sem juros para pequenos negócios, com pagamentos em dia.

A medida pode proteger atividades e empregos. É legítimo usar bancos públicos para isso. Mas crédito continua sendo dívida. O empreendedor que perdeu máquinas e estoque precisa avaliar se terá receita para pagar um novo financiamento depois da reconstrução.

Por isso, a recuperação econômica deve combinar crédito adequado, apoio às famílias e reconstrução da infraestrutura. Não se pode transferir ao pequeno empresário todo o custo de um evento extremo. O Fundo Estadual para Calamidades Públicas tem papel distinto e pode apoiar residências e equipamentos públicos.

A presença de bancos públicos e fundos de emergência demonstra que o Estado dispõe de instrumentos. O desafio é usá-los de forma integrada e com prioridade para quem tem menos capacidade de recuperação. Transparência sobre beneficiários e condições será essencial. A população precisa saber quanto foi contratado, quem recebeu e quais resultados foram alcançados. Sem esse acompanhamento, o anúncio financeiro não comprova a recuperação.

O que diz o MIDR: a Defesa Civil Nacional afirma que acompanha as previsões e articula o socorro com estados e municípios. Em nota de 5 de novembro, informa que assistência, restabelecimento e reconstrução podem receber recursos federais após aprovação dos planos de trabalho.

A agenda climática costuma parecer distante quando falta saneamento ou transporte na cidade. Os temporais mostram o contrário. O clima interfere diretamente no teto da família, na aula das crianças e no funcionamento do comércio local.

Defender serviços públicos fortes inclui defender a Defesa Civil antes do noticiário. Isso significa contratar e capacitar agentes, manter sirenes e alertas, atualizar mapas de risco e financiar obras de prevenção. Também significa ouvir as comunidades que conhecem os pontos de alagamento.

O patriotismo possível aqui é concreto: proteger vidas brasileiras e garantir que nenhum município fique abandonado. A cooperação federativa não deve apagar responsabilidades. Deve somar recursos e conhecimento para reduzir perdas. Essa cooperação precisa sobreviver ao calendário eleitoral e às mudanças de governo.

Os próximos balanços dirão quanto foi destruído. A avaliação mais importante virá depois. Será preciso medir quantas famílias voltaram a morar com segurança e quantas cidades reduziram os riscos antes da próxima tempestade. Esse será o verdadeiro resultado da política pública de emergência.

Como fizemos: Esta análise de opinião usa os balanços do MIDR e da Agência Brasil de 4 e 5 de novembro e o pacote de crédito anunciado pelo Paraná. Somamos desalojados e desabrigados em cada estado. Não comparamos a intensidade dos fenômenos nem estimamos prejuízos financeiros ausentes nas fontes.

Fontes