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Transporte gratuito no Enem é política de igualdade educacional

São Paulo e Piauí somam ao menos 95 mil estudantes atendidos; medida precisa virar política permanente, com cobertura e presença monitoradas.

TribunaEsta é uma análise assinada na Tribuna. O argumento pertence ao autor e não representa necessariamente a posição do Jornal Brasil Profundo.

Estudantes com documentos, água e alimentos aguardam a abertura dos portões do Enem
Candidatos aguardam o segundo dia do Enem em Brasília, em foto de arquivo de 2017.Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

São Paulo e Piauí anunciaram nesta semana transporte gratuito para estudantes nos dois dias do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). São ao menos 95 mil beneficiários nos dois estados, somando cerca de 70 mil paulistas e mais de 25 mil piauienses.

A mobilização mostra que a passagem não é um detalhe administrativo. Ela pode decidir quem chega à prova. O Jornal Brasil Profundo defende que o transporte gratuito seja tratado como parte da política educacional, com regras permanentes e avaliação pública.

O custo do deslocamento também seleciona candidatos

O Enem reúne milhões de estudantes e abre portas para universidades e programas federais. Mas inscrição confirmada não significa participação garantida. Distância, preço da passagem e falta de linhas pesam mais sobre quem tem menor renda.

São Paulo mobilizará aproximadamente 7 mil ônibus em mais de 500 municípios. A operação estadual atenderá alunos sem gratuidade local e quem não tem linha entre casa e local de prova. Estudantes com deficiência terão transporte de porta a porta.

No Piauí, o Passe Livre Enem atenderá trajetos municipais e deslocamentos entre cidades. O alcance inclui quem precisa viajar até um dos 49 municípios de aplicação. Essa dimensão é essencial para o interior, onde a prova pode estar em outra cidade.

Dois estados somam pelo menos 95 mil estudantes atendidos Operações anunciadas para os dias 8 e 15 de novembro de 2026

Estado Estudantes atendidos Estrutura informada
São Paulo Cerca de 70 mil Aproximadamente 7 mil ônibus
Piauí Mais de 25 mil Transporte municipal e intermunicipal
Total Ao menos 95 mil Dois domingos de prova

Fonte: Seduc-SP e Ministério da Educação. Total calculado pela redação.

A soma não representa cobertura nacional. Também não permite comparar a eficiência das operações, porque os formatos são diferentes. São Paulo informa ônibus e Unidades Regionais de Ensino; o Piauí detalha trajetos urbanos e intermunicipais.

Ainda assim, o número demonstra a escala da barreira. Se quase 100 mil jovens precisam de apoio em apenas dois estados, o acesso ao exame não pode depender da capacidade de cada família de pagar o deslocamento.

Gratuidade precisa virar política permanente

A defesa do transporte coletivo gratuito não elimina a necessidade de planejamento. As prefeituras e os governos estaduais devem publicar pontos de embarque, horários, acessibilidade e canais de contingência. Falha de comunicação também pode impedir a participação.

São Paulo informa que 315,2 mil alunos da terceira série da rede estadual devem fazer o exame. Eles equivalem a 94,3% dos matriculados. Os 70 mil atendidos representam cerca de 22,2% desse grupo. A cobertura é relevante, mas não elimina a necessidade de orientar os demais candidatos.

O Piauí realizou um aulão com 3 mil estudantes presenciais e outros 18 mil por transmissão. Revisão de conteúdo e transporte cumprem funções complementares. Preparar para a prova sem garantir a chegada deixa uma etapa decisiva ao acaso.

O que dizem os governos: a Seduc-SP afirma que a operação ampliará o acesso e organizará o embarque pelas necessidades locais. O Ministério da Educação diz que o Passe Livre do Piauí busca evitar que o fator socioeconômico impeça a participação.

A experiência deve ser medida por dois indicadores simples: quantos estudantes usaram o serviço e quantos deixaram de fazer a prova. Também é preciso separar os resultados por município. Uma média estadual pode esconder falhas justamente nas áreas mais distantes.

Não houve divulgação do custo total das duas operações nos anúncios consultados. Esse valor deverá ser público, junto com o número de viagens e de atendimentos. Transparência permite comparar o gasto com o benefício educacional, sem aceitar propaganda como avaliação.

A política também deve respeitar quem já tem gratuidade local. Integração entre sistemas evita duplicidade e ajuda a direcionar veículos para áreas sem cobertura. O objetivo não é criar uma operação nova para aparecer, mas assegurar que nenhum candidato fique sem caminho.

O transporte público é um direito cotidiano de trabalhadores e estudantes. Nos dias de Enem, essa função social aparece com especial clareza. Garantir a chegada à prova é defender a escola pública e a igualdade de oportunidades no Brasil.

A permanência dessas operações em 2027 deveria começar a ser discutida agora. O exame acontece todos os anos. A resposta do Estado também precisa existir todos os anos, com orçamento, cooperação federativa e controle social.

Como fizemos: Conferimos os anúncios da Seduc-SP e do Ministério da Educação publicados nesta semana. Somamos cerca de 70 mil beneficiários paulistas e mais de 25 mil piauienses para chegar ao mínimo de 95 mil. Dividimos 70 mil por 315,2 mil inscritos paulistas para obter 22,2%. Não comparamos custo ou eficiência porque as operações têm formatos e informações diferentes.

Fontes