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IA no SUS deve ampliar o cuidado, não terceirizar o diagnóstico

Ferramenta acerta cerca de 80% e funciona sem internet, mas precisa de regras públicas, avaliação por território e decisão clínica humana.

TribunaEsta é uma análise assinada na Tribuna. O argumento pertence ao autor e não representa necessariamente a posição do Jornal Brasil Profundo.

Dois profissionais de saúde realizam procedimento dermatológico em paciente no Hran
Profissionais atendem paciente no Hospital Regional da Asa Norte, em Brasília, em 2015; a imagem não mostra o CUTIS-AI.Foto: Gabriel Jabur / Agência Brasília / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O Ministério da Saúde e o Einstein Hospital Israelita apresentaram nesta quarta-feira (4) um sistema de inteligência artificial. A ferramenta apoia a identificação de doenças de pele no Sistema Único de Saúde (SUS). O CUTIS-AI funciona sem internet e informa taxa de acerto de cerca de 80%.

A proposta responde a uma desigualdade concreta: faltam especialistas em muitos territórios. Mas a resposta não pode transformar o algoritmo em atalho para reduzir equipes. Tecnologia pública precisa ampliar o cuidado, não criar uma falsa economia com diagnóstico mais frágil. Pequenos municípios e grandes centros devem ter o mesmo compromisso de acesso, formação e segurança.

A vantagem está em chegar onde o especialista não chega

O sistema usa imagens da lesão e dados clínicos, epidemiológicos e sociodemográficos. Foi desenvolvido a partir de entrevistas com profissionais da atenção básica, porta de entrada do SUS. O funcionamento sem conexão pode ser útil em áreas com internet instável.

Entre as condições incluídas estão esporotricose, leishmaniose cutânea, hanseníase, cromoblastomicose, lobomicose, tuberculose cutânea e acidentes por aranha-marrom. A lista mostra que o objetivo não se limita ao câncer de pele.

O estudo reuniu cerca de 1,4 mil pacientes e mais de 4 mil imagens. Isso equivale a uma média aproximada de 2,9 imagens por paciente. A razão não mede a diversidade dos casos, mas mostra que a base combina registros diferentes de uma mesma pessoa.

O que a parceria já apresentou — e o que ainda falta mostrar Informações divulgadas pelo Ministério da Saúde e pelo Einstein

Item Evidência disponível Limite da informação
Taxa de acerto Cerca de 80% Sem detalhamento por doença
Pacientes no estudo Cerca de 1,4 mil Sem distribuição por território
Imagens de lesões Mais de 4 mil Não equivalem a 4 mil pacientes
Conexão Funciona sem internet Não dispensa avaliação clínica
Situação Aplicativo ainda em estudo Não é diagnóstico autônomo

Fonte: Agência Brasil, com informações do Ministério da Saúde e do Einstein.

O número de 80% não deve ser lido como garantia para cada doença, região ou tom de pele. O anúncio não apresenta recortes de desempenho, taxas de falsos positivos ou falsos negativos. Essas diferenças importam quando uma ferramenta orienta uma pessoa a procurar, ou a adiar, atendimento.

A diversidade da base é um acerto. O secretário Fabiano Geraldo Pimenta Junior destacou fototipos, regiões, condições de vida e perfis epidemiológicos brasileiros. Agora, essa diversidade precisa ser demonstrada em resultados públicos, não apenas descrita como intenção.

O SUS precisa controlar as regras do jogo

A parceria com um hospital privado pode trazer conhecimento e infraestrutura. Isso não elimina a necessidade de governança pública. O Ministério da Saúde deve explicar quem responde pelos dados, como o modelo será atualizado e quem auditará seus erros.

A privacidade também precisa ser tratada antes da escala. Imagem de lesão e dados sociodemográficos integram o cuidado e exigem proteção. O anúncio não detalha consentimento, armazenamento, compartilhamento ou prazo de retenção. São questões abertas, não acusações de falha já cometida.

O ponto central é a função do sistema. O CUTIS-AI deve ajudar o profissional a decidir a próxima conduta, e não encerrar o caso. Se o aplicativo indicar baixa probabilidade de doença, o paciente ainda precisa encontrar uma equipe capaz de avaliar a situação real.

O que dizem o Ministério da Saúde e o Einstein: as instituições afirmam que a ferramenta é de apoio e não substitui a avaliação clínica. Também defendem uma base brasileira diversa para reduzir diferenças de desempenho entre grupos.

Há um risco político quando uma tecnologia chega prometendo eficiência. Governos podem usá-la para disfarçar a falta de dermatologistas, equipamentos e tempo de consulta. O SUS não ficará mais forte se a inovação servir de desculpa para não contratar nem formar trabalhadores.

O caminho correto é o oposto. O aplicativo deve liberar o especialista para casos complexos e ajudar a atenção básica a encaminhar melhor. Isso exige protocolos de referência, registro dos erros e possibilidade real de consulta depois da triagem.

A avaliação também precisa medir desfechos. Quantos pacientes foram encaminhados corretamente? Quanto tempo economizaram? Houve diferença entre regiões e fototipos? Sem essas respostas, a taxa de acerto é apenas uma parte da história.

A tecnologia pode ser patrimônio do cuidado público brasileiro. Para isso, seus dados e resultados precisam de transparência, e sua operação deve permanecer subordinada ao julgamento profissional. O critério de sucesso não é impressionar com inteligência artificial. É fazer o paciente chegar antes ao tratamento adequado.

Como fizemos: Analisamos as informações divulgadas pela Agência Brasil em 04/11/2026. Calculamos a razão aproximada entre mais de 4 mil imagens e cerca de 1,4 mil pacientes. Não tratamos a taxa geral de acerto como desempenho uniforme nem presumimos falhas de privacidade não relatadas. A posição editorial defende governança pública, avaliação independente e manutenção da decisão clínica humana.

Fontes