23 governadores fora do PT: cooperar decide o que chega às cidades
Dos 27 governadores eleitos em 2026, 23 são de partidos que não são o PT. Saúde, escola e obras dependem de cooperação entre governo federal e estados.
TribunaEsta é uma análise assinada na Tribuna. O argumento pertence ao autor e não representa necessariamente a posição do Jornal Brasil Profundo.

Dos 27 governadores eleitos em 2026, 23 pertencem a partidos que não são o PT (Partido dos Trabalhadores). Lula foi reeleito no segundo turno, em 25 de outubro, com 51,79% dos votos válidos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A pergunta que sobra é quem leva o dinheiro federal até a escola, o posto de saúde e a obra da cidade.
Segundo a CNN Brasil, o PL (Partido Liberal) elegeu seis governadores, o PSD (Partido Social Democrático) cinco, o PP (Progressistas) quatro e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) um. O União Brasil não elegeu nenhum. Somando as listas do O Povo, o PT ficou com quatro, o Republicanos com quatro, o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) com dois e o Podemos com um.
Este texto defende uma tese. Com governadores de vários partidos, a cooperação entre o governo federal e os estados decide se o Sistema Único de Saúde (SUS), as escolas, a segurança e as obras chegam às cidades. Esse é o federalismo cooperativo: a divisão de tarefas e de dinheiro entre a União (o governo federal), os estados e os municípios. Não é favor partidário. É projeto de país.
Quem paga a saúde e a escola
O SUS é financiado pelos três níveis de governo. Em 2022, a União respondeu por 37,6% das ações e serviços públicos de saúde, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Os estados e o Distrito Federal responderam por 28,4%, e os municípios, por 34%. Ações e serviços públicos de saúde são os gastos que a lei conta como saúde pública.
Na educação, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) reúne parte dos impostos e transferências de estados e municípios. A União completa esse dinheiro. A Lei 14.113, de 2020, prevê que, em 2026, a complementação federal chegue a, no mínimo, 23% do total do fundo. Uma notícia de 6 de julho de 2026 estima essa complementação em R$ 69,3 bilhões para o ano.
Esse dinheiro não fica em Brasília. Ele vai às redes de ensino dos estados e dos municípios, onde estão as escolas. Quando uma regra depende de dois níveis de governo agindo juntos, a falha de um afeta o resultado do outro.
Consórcio, convênio e contrapartida
Os estados também cooperam entre si. Em 14 de março de 2019, os nove estados do Nordeste assinaram em São Luís o protocolo que criou o Consórcio Nordeste. Um dos eixos é a compra conjunta: “Mais economia: compra conjunta de produtos ou serviços contratados entre os estados”.
A Agência Nordeste não publicou um valor de economia, e não encontramos número oficial verificado. Por isso, este texto não estima quanto o consórcio poupou. O ganho aparece como objetivo, e não como resultado medido.
A cooperação com o governo federal também tem regras. Muitas obras chegam por convênio, um acordo em que a União repassa recursos e o outro ente executa o serviço. A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) trata esses repasses como transferências voluntárias e exige “previsão orçamentária de contrapartida” (art. 25, § 1º, IV, d). Em termos simples, o estado ou o município precisa reservar no próprio orçamento a sua parte.
A regra não vale para transferências que decorrem da Constituição ou de lei, nem para as destinadas ao SUS. Ou seja, a saúde e o Fundeb não dependem de convênio assinado obra por obra.
O argumento contrário tem voz. Em 21 de maio de 2026, Douglas Ruas, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e hoje governador eleito pelo PL, afirmou: “Mas grande parte da arrecadação segue concentrada em Brasília.” Ele defendeu “autonomia financeira para quem executa as políticas públicas na ponta”.
A crítica aponta um problema real de desenho: quem executa o serviço nem sempre controla o dinheiro. A resposta, porém, não é recusar o acordo. Autonomia precisa de recursos, e a Constituição já reparte parte deles com estados e municípios. A fatia estadual da saúde e a complementação do Fundeb mostram isso na prática.
Defender mais receita própria e usar o Fundeb, o SUS e os consórcios não são caminhos opostos. São o mesmo caminho, com regras claras e contas públicas à vista de todos.
O que diz Douglas Ruas (PL), governador eleito do Rio de Janeiro: em 21 de maio de 2026, ao Diário do Rio, afirmou que “grande parte da arrecadação segue concentrada em Brasília” e defendeu autonomia financeira para quem executa as políticas públicas. A redação não contatou Ruas; a posição vem da reportagem publicada.
Com 23 governadores fora do PT, o país não se governa só de Brasília. O que chega à cidade depende de fundos, convênios e obras feitos por dois ou três níveis de governo. Quem precisa de uma escola ou de um posto de saúde não pergunta a cor do partido do governador.
Os governadores eleitos tomam posse em 6 de janeiro de 2027, segundo a Rádio Senado. Cooperar com quem pensa diferente não é concessão ao adversário. É o jeito de o Brasil funcionar para quem vive longe da capital federal.
Como fizemos: A contagem por partido soma as listas de governadores eleitos no 1º turno (O Povo, 5/10/2026) e no 2º turno (O Povo, 25/10/2026), conferida com a contagem da CNN Brasil (26/10/2026). O resultado nacional de Lula, 51,79%, vem do Bloomberg Línea, com dados do TSE, que não consultamos diretamente. A parcela do SUS é do Ipea, com dados de 2022. O mínimo de 23% do Fundeb vem da Lei 14.113; a estimativa de R$ 69,3 bilhões vem de notícia de 6/7/2026. Não estimamos economia das compras conjuntas, porque o consórcio não publicou valor verificável. Fontes acessadas em 27/10/2026.
Fontes
- 20 estados definem governadores no 1º turno; PL é o partido que mais elegeu — O Povo (5/10/2026)
- Resultados da eleição 2026: governadores eleitos no 2º turno — O Povo (25/10/2026)
- Eleições 2026: veja quais partidos elegeram mais governadores — CNN Brasil (26/10/2026)
- Resultado do 2º turno por estado: veja onde Lula e Flávio Bolsonaro venceram — Bloomberg Línea (26/10/2026)
- Posse presidencial em 2027 será em 5 de janeiro e governadores tomam posse no dia 6 — Rádio Senado (5/1/2026)
- Gasto público em saúde — Ipea, Beneficiômetro (acesso em 27/10/2026)
- Lei nº 14.113, de 25 de dezembro de 2020 (Fundeb) — Planalto (acesso em 27/10/2026)
- Estados e municípios recebem R$ 5,19 bilhões da sexta parcela do Fundeb — Amams (6/7/2026)
- Governadores criam Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste — Agência Nordeste (15/3/2019)
- Lei de Responsabilidade Fiscal (LC 101/2000) — Planalto (acesso em 27/10/2026)
- Douglas Ruas defende revisão do pacto federativo e critica concentração de recursos na União — Diário do Rio (21/5/2026)
- Reunião com governadores dos estados e do Distrito Federal, 27/1/2023 — Wikimedia Commons (CC BY 2.0)



