Como funciona

Boletim de urna e fiscais do partido certificam o resultado

Cada seção imprime um boletim de urna com QR code. Veja como conferir o da sua seção e o que a margem de 4,4 milhões de votos significa.

Urna eletrônica brasileira modelo UE2020, com tela, teclado numérico com botões Branco, Corrige e Confirma, e o terminal do mesário ao lado
Urna eletrônica modelo UE2020, usada pela Justiça Eleitoral. Foto de arquivo, de dezembro de 2021.Foto: Antonio Augusto / Secom / TSE / Wikimedia Commons (domínio público)

Na noite de domingo (25), o TSE somou 64.256.232 votos para Lula e 59.826.041 para Flávio Bolsonaro. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos. A diferença foi de 4.430.191 votos, segundo o Mapa Eleitoral.

Flávio Bolsonaro (PL, Partido Liberal) disse que é “impossível reconhecer o resultado dessa eleição”. Ele também afirmou: “Nossos fiscais do PL foram retirados de dentro da sala-cofre”. Segundo a InfoMoney, essas acusações ainda não foram comprovadas.

Então, o que certifica um resultado no Brasil? A resposta tem três partes. Há o boletim impresso em cada seção, as cópias que os partidos recebem e os testes feitos antes e durante a votação.

O boletim de urna: um papel por seção

A seção eleitoral é a unidade de votação, com urna e mesa receptora, a equipe que recebe o voto. Ao fim da votação, a urna imprime o boletim de urna (BU). Ele mostra os votos de cada candidato naquela seção, além de brancos, nulos e o número de eleitores que compareceram.

Cada BU traz um QR code, o quadrado de pontos que o celular lê. Uma via fica afixada na porta da seção. Depois, o resultado pode ser conferido na internet, segundo a Agência Brasil.

A lei também garante cópias a quem fiscaliza. O artigo 68, parágrafo 1º, da Lei 9.504/1997 manda o presidente da mesa entregar cópias aos partidos e às coligações, grupos de partidos, que pedirem. O artigo 66 diz que eles podem fiscalizar “todas as fases do processo de votação e apuração”.

Como conferir a sua seção

Os resultados de cada urna passam por checagens antes de entrar na totalização, a soma de todas as seções. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a urna de origem e a assinatura digital precisam bater. Júlio Valente, secretário de Tecnologia da Informação do tribunal, diz que o sistema tem cerca de 40 pontos de fiscalização e auditoria.

Os testes também acontecem à vista de todos. No 1º turno, em 4 de outubro, o teste de integridade é uma simulação: votos conhecidos são registrados em uma urna e depois comparados com o resultado. Até as 10h, 421 urnas tinham sido trocadas, cerca de 0,07% das usadas. Até a manhã, nenhuma irregularidade havia sido identificada, segundo o Times Brasil.

Antes da eleição, as urnas são sorteadas em cerimônia aberta. A sorteada sai da seção, é trocada por uma reserva e segue para auditoria sob escolta, segundo o Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN), citado pelo Correio.

Para conferir a sua seção, siga três passos, segundo o InvestNews:

  1. Pegue o número da zona e da seção no título de eleitor ou no e-Título, o aplicativo do título.
  2. No Portal Resultados do TSE, abra “Arquivos de Urna”. Escolha estado, município, zona e seção, e abra o boletim.
  3. Compare o boletim com a totalização da mesma seção.

Vale comparar também com a cópia da porta. Em auditoria sobre 2022, o Tribunal de Contas da União (TCU) encontrou falhas na leitura dos QR codes pelo app Boletim na Mão.

Os números mostram a escala. O TSE informou 563.910 urnas disponíveis no 1º turno. No 2º turno, o Mapa Eleitoral contou 499.248 seções apuradas, 100% do total. Dividida pelas seções, a margem equivale a cerca de 8,9 votos por seção. Os votos válidos somam 124.082.273, ou cerca de 249 por seção.

A média não mostra o que aconteceu em cada seção. Mostra, porém, a escala. Inverter uma diferença de mais de 4 milhões de votos exigiria alterar milhões de votos, em boletins que fiscais e eleitores podem conferir.

Outras checagens vieram de fora do TSE. Em 2022, o Ministério da Defesa entregou ao tribunal um relatório sobre as urnas em 9 de novembro. Em nota, o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, disse que o documento “não apontou a existência de nenhuma fraude ou inconsistência”. A própria Defesa afirmou que não era possível garantir que o sistema estivesse livre de um eventual código malicioso, um programa escondido. Em 2023, o TCU analisou 1.163 boletins da eleição de 2022 e confirmou os resultados, com “falhas pontuais”.

O que diz o TSE: segundo a Agência Brasil, Júlio Valente afirmou: “O processo eleitoral brasileiro é um dos mais seguros, modernos e auditáveis do mundo”. A fala é de 13 de agosto, antes da votação. Sobre a alegação de retirada de fiscais, o TSE disse em nota, segundo o Metrópoles, que “a sala-cofre do TSE não é um espaço aberto à visitação” e que dois fiscais do PL acompanharam a totalização.

O que fica em aberto? Até esta publicação, não encontramos seção, boletim ou prova divulgados para a alegação de retirada de fiscais. Uma contestação formal passa pela Justiça Eleitoral, onde é preciso apresentar provas. O boletim de cada seção é a prova mais fácil de conferir, porque fica na porta da seção e no site de Resultados do TSE.

Como fizemos: Usamos o Mapa Eleitoral (apuração do 2º turno, atualizada às 23h27 de 25/10/2026), a InfoMoney (25/10/2026), a Agência Brasil republicada pelo Diario de Pernambuco (13/8/2026), o Times Brasil (4/10/2026), o InvestNews (8/10/2026), o Correio (20/2/2026), o NSC Total (4/9/2026), o SBT News (5/12/2025), a Gazeta do Povo (26/12/2023), O Imparcial (10/11/2022) e a Lei 9.504/1997 no Planalto. Acessamos tudo em 26/10/2026; os sites do TSE não abriram. Calculamos a margem (64.256.232 − 59.826.041 = 4.430.191), a média por seção (4.430.191 ÷ 499.248 ≈ 8,9) e os votos válidos por seção (124.082.273 ÷ 499.248 ≈ 249). Não confirmamos o total de urnas do 2º turno; usamos o número do 1º turno. O TSE informou 517.206 seções no 1º turno, sem explicar a diferença com o Mapa.

Fontes