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Complexo de Israel: o império de Peixão no Rio

Desde 2016, o chefe do TCP domina cinco favelas da zona norte sob bandeiras de Israel, persegue religiões afro-brasileiras e nunca foi preso.

Casas de alvenaria de vários andares ocupam uma encosta em Parada de Lucas, na zona norte do Rio, sob céu azul
Casas em Parada de Lucas, uma das comunidades do chamado Complexo de Israel, segundo a CartaCapital, em agosto de 2010.Foto: Junius / Wikimedia Commons (domínio público)

Cinco favelas da zona norte do Rio de Janeiro vivem sob um nome que não está em nenhum mapa oficial: Complexo de Israel. O território foi tomado a partir de 2016 pelo Terceiro Comando Puro (TCP), facção chefiada por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão. Ele nunca foi preso.

Peixão se apresenta como evangélico e transformou a fé em marca do domínio. Segundo a CartaCapital e a BBC, ele usa bandeiras de Israel e persegue religiões de matriz africana nas áreas que controla. O chefe da Polícia Civil do Rio chamou o regime de “ditadura religiosa”.

Um poder que cresceu

O Complexo de Israel não é um caso isolado de uma esquina do Rio. Em novembro de 2025, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) informou ao Congresso que o TCP é o terceiro grupo emergente do crime organizado no país. Ele vem depois do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC). A facção já está em nove estados, segundo a BBC. Na avaliação da Abin, portanto, o grupo de Peixão já aparece logo atrás das duas maiores facções do país.

A violência também mudou de escala. Segundo a polícia, em 28 de setembro de 2026, a “Tropa do Arão”, grupo ligado a Peixão, interceptou dois ônibus escolares na Linha Vermelha. Por esse episódio, Peixão passou a ser investigado por terrorismo, segundo o jornal O Tempo.

Na prática, o morador dessas comunidades convive com regras impostas pela facção, inclusive sobre a fé. Os seguidores de religiões de matriz africana estão entre os alvos, segundo as reportagens. Ônibus de estudantes também já entraram na mira.

Fé usada como escudo

O caso de Peixão alimentou um debate sobre a relação entre igrejas e crime. Os pesquisadores pedem cuidado com as palavras. A pastora e pesquisadora Viviane Costa, autora do livro Traficantes evangélicos, de 2023, prefere o termo “narcorreligião”, segundo a Agência Brasil.

Ela alerta que falar em “narcopentecostalismo” exagera o vínculo com uma única tradição de fé. O estudo dela é qualitativo, baseado em casos, e não traz números nacionais. Ninguém sabe, hoje, quantas comunidades vivem sob regimes parecidos.

O uso de igrejas pelo crime aparece também longe do Rio. Na Operação Plata, no Rio Grande do Norte, em fevereiro de 2023, a polícia acusou o irmão de um líder do PCC e a mulher dele. Segundo a investigação, o casal abriu sete igrejas para lavar mais de R$ 23 milhões, relatou O Liberal. É uma acusação, não uma condenação.

Isso importa para a cobertura. A imensa maioria dos evangélicos frequenta igrejas que nada têm a ver com facções. Culpar o pentecostalismo como um todo pelo que faz um chefe do tráfico é injusto e não ajuda a combater o crime.

Uma tarefa dos estados

A segurança pública no Brasil é, sobretudo, responsabilidade dos governos estaduais. É a Polícia Civil do Rio que investiga Peixão. A Polícia Militar, que faz o patrulhamento, também é estadual. E é o governo fluminense que precisa explicar por que o chefe do TCP segue solto.

O drama, porém, transborda o Rio. Uma facção presente em nove estados é problema nacional. Exige troca de informação entre polícias, rastreio do dinheiro e coordenação com o governo federal.

Não há, no registro reunido por esta reportagem, nenhuma ligação entre o Complexo de Israel e Flávio Bolsonaro ou seus aliados. O candidato também não disse nada específico sobre o caso. Suas propostas sobre o tema se limitam a classificar o PCC, o CV e as milícias como “narcoterroristas”.

O que dizem os pesquisadores: Viviane Costa, autora de Traficantes evangélicos, afirma que o fenômeno não é exclusivo do pentecostalismo e não tem medição nacional. O registro não traz manifestação de Peixão ou de defesa em nome dele.

O eleitor vota para presidente no dia 25 de outubro. Quem vencer em Brasília terá de olhar para o mapa que a facção desenhou na zona norte. Um império criminoso que usa o nome de Deus, persegue a fé alheia e ataca ônibus de estudantes não se combate com slogan. Combate-se com investigação, inteligência e prisão de quem manda.

Fontes