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"Ditadura religiosa": chefe da Polícia Civil define o Complexo de Israel

O chefe da Polícia Civil do Rio resumiu em duas palavras o domínio de Peixão sobre cinco favelas, onde religiões de matriz africana viraram alvo.

Pessoas em fila diante do portão de entrada da Cidade da Polícia, no Rio de Janeiro, sob um letreiro com o nome do complexo
Entrada da Cidade da Polícia, complexo da Polícia Civil do Rio de Janeiro, em fevereiro de 2015.Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

O chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro usou duas palavras para descrever o que acontece em cinco favelas da zona norte: “ditadura religiosa”. O alvo da frase é Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão. Ele comanda o Terceiro Comando Puro (TCP) e domina, desde 2016, o território que batizou de Complexo de Israel.

A expressão foi registrada pela CartaCapital e pela BBC. Não é comum que uma autoridade policial use um termo assim. Ela costuma falar em tráfico, homicídio ou roubo. Neste caso, o crime tem também um rosto religioso. E a frase pesa mais por vir da polícia que investiga os crimes no estado.

O que a expressão quer dizer

Ditadura religiosa é quando uma fé é imposta pela força e as outras são proibidas. Segundo as reportagens, é o que se vê nas áreas de Peixão. O chefe do TCP se apresenta como evangélico e espalhou bandeiras de Israel pelo território.

Os seguidores de religiões de matriz africana foram perseguidos. Nas comunidades sob o domínio da facção, a liberdade de crença deixou de valer para eles. E a Constituição garante essa liberdade a todos os brasileiros, de qualquer fé ou de nenhuma.

Peixão nunca foi preso. Em 28 de setembro de 2026, segundo a polícia, a “Tropa do Arão”, ligada a ele, interceptou dois ônibus escolares na Linha Vermelha. Depois disso, ele passou a ser investigado por terrorismo, informou o jornal O Tempo.

Um problema que se espalha

O TCP já não é um grupo local. Em novembro de 2025, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) disse ao Congresso que a facção é o terceiro grupo emergente do crime no país. Ela vem depois do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) e já está em nove estados, segundo a BBC. O modelo que nasceu na zona norte do Rio, portanto, já se espalhou pelo país.

A mistura de crime e púlpito também aparece em outros lugares. Em julho de 2026, na Operação Fariseus, em Mato Grosso, a polícia acusou dois pastores. Segundo a investigação, eles usavam um projeto de evangelização em presídios para levar recados e dinheiro do CV, relatou o site Minuto MT. É uma acusação, ainda sem julgamento.

Os pesquisadores pedem cautela. A pastora e pesquisadora Viviane Costa, autora de Traficantes evangélicos, prefere falar em “narcorreligião”. Ela alerta que o termo “narcopentecostalismo” exagera o vínculo com uma única tradição de fé. O estudo dela é qualitativo e não traz números nacionais, segundo a Agência Brasil.

A liberdade religiosa na campanha

A liberdade de culto entrou na campanha presidencial, mas por outra porta. Em 16 de outubro, a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou Flávio Bolsonaro apagar o post “Lula não feche minha igreja”. Para ela, a publicação sugeria uma ameaça à liberdade religiosa sem fatos que a sustentassem. A agência de checagem evangélica Bereia já tinha classificado a afirmação como falsa.

A ameaça documentada está em outro lugar: na perseguição a religiões de matriz africana na zona norte do Rio. Não há, no registro desta reportagem, nenhuma ligação entre Peixão e Flávio ou seus aliados. Mas também não há proposta específica do candidato sobre o Complexo de Israel. O plano dele fala em classificar o PCC, o CV e as milícias como “narcoterroristas”.

Para o governo do estado, a frase do chefe da Polícia Civil é também um retrato do desafio. Quando a própria polícia reconhece uma ditadura dentro da cidade, a pergunta seguinte é quando ela vai acabar.

O que dizem os pesquisadores: a pastora e pesquisadora Viviane Costa lembra que o fenômeno não é exclusivo do pentecostalismo e não deve ser usado para culpar os evangélicos como um todo. O registro não traz manifestação de Peixão ou de defesa em nome dele sobre as acusações.

No dia 25 de outubro, o país escolhe quem vai coordenar a segurança pública federal pelos próximos quatro anos. Uma facção em nove estados, que persegue a fé dos outros e ataca ônibus de estudantes, exige mais que discurso. Exige polícia que investigue, dinheiro rastreado e Estado presente onde hoje manda o crime. Liberdade religiosa se defende com fatos, não com posts que o TSE manda apagar.

Fontes