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Peixão nunca foi preso e agora é investigado por terrorismo

Chefe do TCP domina o Complexo de Israel desde 2016 sem nunca ter sido preso; após o ataque a ônibus escolares, a polícia o investiga por terrorismo.

Carros trafegam por viaduto sob placas que indicam a Linha Vermelha, o aeroporto internacional e Petrópolis, no Rio de Janeiro
Acesso à Linha Vermelha, no Rio de Janeiro, em julho de 2025; foi nessa via que, segundo a polícia, dois ônibus escolares foram interceptados em setembro de 2026.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Em 28 de setembro de 2026, dois ônibus escolares foram interceptados na Linha Vermelha, via expressa do Rio de Janeiro. Segundo a polícia, a ação foi da “Tropa do Arão”, grupo ligado a Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão. Depois do ataque, ele passou a ser investigado por terrorismo, informou o jornal O Tempo.

Peixão chefia o Terceiro Comando Puro (TCP). Desde 2016, domina cinco favelas da zona norte, rebatizadas por ele de Complexo de Israel. E há um dado que resume a história: ele nunca foi preso.

Dez anos de domínio

O registro público reunido por esta reportagem não explica por que Peixão segue em liberdade. Nenhuma das fontes consultadas aponta uma razão oficial. O que elas mostram é o tamanho do poder que ele construiu enquanto continuava solto.

Segundo a CartaCapital e a BBC, Peixão se apresenta como evangélico, espalhou bandeiras de Israel pelo território e persegue religiões de matriz africana. O chefe da Polícia Civil do Rio chamou o regime de “ditadura religiosa”.

Os pesquisadores pedem cuidado com generalizações. A pastora e pesquisadora Viviane Costa, autora de Traficantes evangélicos, alerta que o fenômeno não é exclusivo do pentecostalismo, segundo a Agência Brasil. Culpar os evangélicos pelo que faz um chefe do tráfico seria injusto com milhões de fiéis.

A facção também cresceu para fora do Rio. Em novembro de 2025, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) informou ao Congresso que o TCP é o terceiro grupo emergente do crime no país. Ele vem depois do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) e já atua em nove estados, segundo a BBC.

O que muda com a investigação por terrorismo

Ser investigado não é ser réu nem condenado. Uma investigação é a fase em que a polícia reúne provas. Depois, o Ministério Público decide se acusa formalmente. Só então um juiz julga.

Ainda assim, a mudança é simbólica. Até setembro, Peixão era tratado como chefe de facção. Agora, as autoridades enquadram as ações do grupo num crime de outra gravidade. O ataque a ônibus com estudantes é o tipo de episódio que leva o medo para fora das favelas e para dentro da rotina da cidade.

A palavra “terrorismo” também está no debate nacional. O plano de governo de Flávio Bolsonaro, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), propõe declarar o PCC, o CV e as milícias como “narcoterroristas”, com bens congelados. O TCP não aparece nessa lista. Não há, no registro, nenhuma ligação entre Peixão e Flávio ou seus aliados, e o candidato não disse nada específico sobre o Complexo de Israel.

Força sem inteligência

Especialistas ouvidos pela Folhapress, como Paiva, da Universidade Federal do Ceará (UFC), e Grillo, da Universidade Federal Fluminense (UFF), chamam boa parte do plano de Flávio de populismo penal. Para eles, penas mais duras e prisões em massa não reduziram o crime no passado. Outros especialistas veem valor no rótulo de terrorismo para facilitar o cerco financeiro às facções.

É justo registrar: Flávio votou a favor do projeto antifacção, aprovado no Senado por 64 a 0 em dezembro de 2025. O ponto em debate não é a intenção de endurecer. É se rótulos e presídios gigantes resolvem o caso de um chefe que domina um território há uma década sem ser preso.

Um líder que nunca foi capturado não se derruba com discurso. Derruba-se com investigação de longo prazo, rastreio de dinheiro e cooperação entre polícias de vários estados. Esse trabalho é menos visível que uma operação com fuzis, mas é ele que leva chefes à cadeia.

O que diz Peixão: o registro não traz manifestação dele ou de defesa em seu nome. Ele é investigado, e não condenado, pelo ataque aos ônibus escolares na Linha Vermelha.

O Rio convive com Peixão há dez anos. No dia 25 de outubro, o eleitor escolhe o presidente que vai coordenar, com os estados, a resposta a facções que já cruzaram fronteiras. A pergunta para os candidatos é concreta: como prender quem nunca foi preso? Quem responder só com slogans estará repetindo a receita que deixou o chefe do TCP solto até hoje.

Fontes