SudesteRio de Janeiro
Peixão nunca foi preso e agora é investigado por terrorismo
Chefe do TCP domina o Complexo de Israel desde 2016 sem nunca ter sido preso; após o ataque a ônibus escolares, a polícia o investiga por terrorismo.

Em 28 de setembro de 2026, dois ônibus escolares foram interceptados na Linha Vermelha, via expressa do Rio de Janeiro. Segundo a polícia, a ação foi da “Tropa do Arão”, grupo ligado a Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão. Depois do ataque, ele passou a ser investigado por terrorismo, informou o jornal O Tempo.
Peixão chefia o Terceiro Comando Puro (TCP). Desde 2016, domina cinco favelas da zona norte, rebatizadas por ele de Complexo de Israel. E há um dado que resume a história: ele nunca foi preso.
Dez anos de domínio
O registro público reunido por esta reportagem não explica por que Peixão segue em liberdade. Nenhuma das fontes consultadas aponta uma razão oficial. O que elas mostram é o tamanho do poder que ele construiu enquanto continuava solto.
Segundo a CartaCapital e a BBC, Peixão se apresenta como evangélico, espalhou bandeiras de Israel pelo território e persegue religiões de matriz africana. O chefe da Polícia Civil do Rio chamou o regime de “ditadura religiosa”.
Os pesquisadores pedem cuidado com generalizações. A pastora e pesquisadora Viviane Costa, autora de Traficantes evangélicos, alerta que o fenômeno não é exclusivo do pentecostalismo, segundo a Agência Brasil. Culpar os evangélicos pelo que faz um chefe do tráfico seria injusto com milhões de fiéis.
A facção também cresceu para fora do Rio. Em novembro de 2025, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) informou ao Congresso que o TCP é o terceiro grupo emergente do crime no país. Ele vem depois do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) e já atua em nove estados, segundo a BBC.
O que muda com a investigação por terrorismo
Ser investigado não é ser réu nem condenado. Uma investigação é a fase em que a polícia reúne provas. Depois, o Ministério Público decide se acusa formalmente. Só então um juiz julga.
Ainda assim, a mudança é simbólica. Até setembro, Peixão era tratado como chefe de facção. Agora, as autoridades enquadram as ações do grupo num crime de outra gravidade. O ataque a ônibus com estudantes é o tipo de episódio que leva o medo para fora das favelas e para dentro da rotina da cidade.
A palavra “terrorismo” também está no debate nacional. O plano de governo de Flávio Bolsonaro, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), propõe declarar o PCC, o CV e as milícias como “narcoterroristas”, com bens congelados. O TCP não aparece nessa lista. Não há, no registro, nenhuma ligação entre Peixão e Flávio ou seus aliados, e o candidato não disse nada específico sobre o Complexo de Israel.
Força sem inteligência
Especialistas ouvidos pela Folhapress, como Paiva, da Universidade Federal do Ceará (UFC), e Grillo, da Universidade Federal Fluminense (UFF), chamam boa parte do plano de Flávio de populismo penal. Para eles, penas mais duras e prisões em massa não reduziram o crime no passado. Outros especialistas veem valor no rótulo de terrorismo para facilitar o cerco financeiro às facções.
É justo registrar: Flávio votou a favor do projeto antifacção, aprovado no Senado por 64 a 0 em dezembro de 2025. O ponto em debate não é a intenção de endurecer. É se rótulos e presídios gigantes resolvem o caso de um chefe que domina um território há uma década sem ser preso.
Um líder que nunca foi capturado não se derruba com discurso. Derruba-se com investigação de longo prazo, rastreio de dinheiro e cooperação entre polícias de vários estados. Esse trabalho é menos visível que uma operação com fuzis, mas é ele que leva chefes à cadeia.
O que diz Peixão: o registro não traz manifestação dele ou de defesa em seu nome. Ele é investigado, e não condenado, pelo ataque aos ônibus escolares na Linha Vermelha.
O Rio convive com Peixão há dez anos. No dia 25 de outubro, o eleitor escolhe o presidente que vai coordenar, com os estados, a resposta a facções que já cruzaram fronteiras. A pergunta para os candidatos é concreta: como prender quem nunca foi preso? Quem responder só com slogans estará repetindo a receita que deixou o chefe do TCP solto até hoje.
Fontes
- Chefe do tráfico no Complexo de Israel ordenou ataque a ônibus escolares, diz polícia — O Tempo
- Quem é Peixão, o traficante evangélico dono de um império religioso-criminal no Rio de Janeiro — CartaCapital
- A expansão pelo Brasil dos traficantes que se veem como soldados de Jesus — BBC via Terra
- A facção evangélica que emerge como terceira força do crime organizado do Brasil — BBC via O Povo
- Pesquisa aborda relação entre fé e crime — Agência Brasil
- Segurança pública: veja as propostas de Flávio na íntegra — SBT News
- Plano de Flávio Bolsonaro desconhece sistema de segurança pública, dizem especialistas — Bem Paraná/Folhapress
- Veja os senadores que garantiram votação unânime do PL antifacção — Gazeta do Povo



