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Milícia e igreja: o que dizem os pesquisadores do Rio

Pesquisadores de universidades reuniram relatos de igrejas que lavariam dinheiro de milícias no Rio; o fenômeno é real, mas não tem medição nacional.

Prédios residenciais de cinco andares pintados de verde-claro, com carros estacionados em um pátio e montanhas ao fundo
Conjunto habitacional na Cidade de Deus, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, em janeiro de 2015; imagem ilustrativa, a comunidade não é citada nos estudos.Foto: Junius / Wikimedia Commons (domínio público)

Em 2020, pesquisadores de universidades do Rio de Janeiro reuniram relatos de um tipo de parceria que poucos gostam de discutir. Segundo esses relatos, algumas igrejas pentecostais lavariam dinheiro de milícias e fariam a ponte entre milicianos e políticos. O levantamento foi publicado pelo Terra.

As milícias são grupos armados, muitas vezes formados por policiais e ex-policiais, que controlam bairros e cobram por serviços e “proteção”. No Rio, elas disputam território com as facções do tráfico. O estudo de 2020 indicou que elas também mantêm parcerias com a polícia, com facções e com igrejas.

O que está provado e o que não está

É preciso separar as coisas. Os relatos de 2020 foram reunidos por pesquisadores, mas não foram comprovados em processo. São pistas, não sentenças.

A pastora e pesquisadora Viviane Costa, autora do livro Traficantes evangélicos, de 2023, estuda a mistura de fé e crime. Ela prefere o termo “narcorreligião”, segundo a Agência Brasil. E alerta que falar em “narcopentecostalismo” exagera o vínculo com uma única tradição de fé.

O estudo dela é qualitativo. Ou seja, analisa casos em profundidade, mas não mede o tamanho do fenômeno no país. Ninguém sabe, hoje, quantas igrejas estão envolvidas com o crime. Os pesquisadores insistem que culpar o pentecostalismo como um todo é um erro.

A escolha da palavra tem consequência prática. Quando um termo cola o crime a uma denominação inteira, quem paga é o fiel comum, que nada tem a ver com o caso. Por isso a pesquisadora prefere tratar a relação entre crime e religião de forma mais ampla.

Os casos que chegaram à polícia

Alguns episódios saíram do campo dos relatos e chegaram a investigações. No Rio, o caso mais conhecido é o de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão. Chefe do Terceiro Comando Puro (TCP), ele domina cinco favelas da zona norte sob o nome de Complexo de Israel e persegue religiões de matriz africana, segundo a CartaCapital.

Em março de 2025, a Polícia Federal (PF) citou a Igreja Mundial, do pastor Valdemiro Santiago, na Operação Mafiusi. A investigação apura lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). A igreja apareceu em movimentações consideradas “atípicas”, segundo o Brasil de Fato, mas não houve denúncia.

Fora do Rio, há outros exemplos. Na Operação Plata, no Rio Grande do Norte, em 2023, a polícia acusou o irmão de um líder do PCC e a mulher dele. Segundo a investigação, o casal abriu sete igrejas para lavar mais de R$ 23 milhões, relatou O Liberal.

Em Mato Grosso, na Operação Fariseus, de julho de 2026, a polícia acusou dois pastores. Eles usariam um projeto de evangelização em presídios para levar recados e dinheiro do Comando Vermelho (CV), segundo o site Minuto MT. São acusações, ainda sem julgamento.

Milícia, um tema antigo na política do Rio

Nenhum desses casos envolve Flávio Bolsonaro. O registro não mostra ligação dele com igrejas usadas pelo crime. Seria desonesto sugerir o contrário.

A relação de Flávio com o tema milícia é outra, mais antiga e documentada. Em 2007, num discurso na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), ele tratou as milícias como uma nova forma de policiamento. A informação está num editorial do Estadão, lido aqui por meio de uma reprodução publicada pelo Sengerj.

Flávio também homenageou na Alerj, em 2003 e 2005, o ex-policial militar Adriano da Nóbrega. Segundo a Exame, Adriano estava preso quando recebeu uma das homenagens. Esse capítulo está documentado e não depende de nenhuma igreja.

O que diz o registro sobre as igrejas citadas: a Igreja Mundial não foi denunciada na Operação Mafiusi; a PF citou apenas movimentações atípicas. Os relatos de 2020 sobre igrejas e milícias não foram comprovados, e pesquisadores como Viviane Costa alertam contra culpar os evangélicos como um todo.

Para o Rio, o debate sobre milícia e igreja não é abstrato. Ele trata de quem manda nos bairros, de quem financia campanhas locais e de onde vai o dinheiro do crime. A resposta exige pesquisa séria, investigação que siga o dinheiro e cuidado para não estigmatizar milhões de fiéis. No dia 25 de outubro, vale perguntar qual candidato tem histórico de enfrentar as milícias, e não de elogiá-las.

Fontes