Opinião

Quem planta no interior não deve premiar quem agradeceu o tarifaço

Flávio agradeceu a Trump pelo tarifaço de 50%, apagou o post e, em julho de 2026, pediu suspensão das tarifas de 25% culpando Lula.

OpiniãoEste é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Brasil Profundo.

Três caminhões de carga coberta em uma rodovia de duas faixas, com paisagem rural e céu com nuvens ao fundo
Caminhões com carga coberta na BR-163, perto de Rondonópolis (MT), em 2009.Foto: Roosevelt Pinheiro / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 br)

Opinião. Este texto expressa a visão da colunista, não a posição oficial do Jornal Brasil Profundo.

Em 9 de julho de 2025, Flávio Bolsonaro (PL) agradeceu a Donald Trump, no X, pela tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. Depois, disse que se arrependeu e apagou a postagem. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, temos uma pergunta simples antes do segundo turno. Quem agradece uma tarifa contra o Brasil pode falar em nome de quem produz no interior?

Quem planta e cria no interior conhece o efeito de uma tarifa. Ela chega ao preço de exportação, ao frete e à conta do produtor. Quem paga é o produtor, e quem perde é o município que vive dessa renda.

O que o agro ouviu de Flávio em Washington

Em julho de 2026, Flávio foi aos Estados Unidos. Segundo a Reuters, ele pediu ao governo americano a suspensão das tarifas de 25% e atribuiu a Lula a culpa pelo problema. Essas tarifas entraram em vigor em 15 de julho.

Líderes do setor, sem se identificar, disseram ao O Globo que a viagem foi “contraproducente” e pôs a ideologia acima do campo. Não é uma voz oficial de entidade, e a reportagem não traz outra fala deles.

Há um caso mais grave na mesma família. Em 16 de junho, o STF condenou Eduardo Bolsonaro a 4 anos e 2 meses de prisão por coação. Segundo a Agência Brasil, ele buscou sanções e tarifas americanas para tentar barrar o julgamento do pai.

A crítica também veio de dentro da direita. Ronaldo Caiado (PSD) chamou de “inaceitável” o pedido de Flávio para adiar as tarifas, segundo o Jornal de Brasília. Ele disse ainda que os escândalos mostravam quanto a candidatura estava comprometida. Mesmo assim, Caiado apoia Flávio no segundo turno. Quem chamou o pedido de inaceitável deve explicar por que hoje fecha com quem o fez.

A tarifa também pesa na escolha do eleitor. Uma pesquisa Quaest citada pela Reuters em julho mostrou 42% mais inclinados a Lula por causa das tarifas, contra 27% inclinados a Flávio. Quem vive de exportação sabe que a conta chega antes da urna.

O que pesa, e o que favorece Flávio

Para ser justo com quem lê, há fatos que jogam a favor dele. A Bolsa disparou e o dólar operou abaixo de R$ 5 quando ele liderou o primeiro turno, segundo o Estado de Minas. Isso mostra expectativa de mercado, não garantia de política econômica.

Também é preciso dizer de quem é o recorde do agro. As exportações do setor somaram US$ 169,2 bilhões em 2025, segundo a Forbes Agro. Esse resultado veio com o governo Lula. O Plano Brasil Soberano, do mesmo governo, prevê R$ 30 bilhões em crédito para exportadores atingidos pelo tarifaço, segundo a Agência Brasil.

Isso não muda a conta. O patriotismo que o agro conhece é o de quem defende o exportador brasileiro, não o de quem agradece a tarifa que o atinge. Flávio agradeceu a tarifa de 50% e depois apagou o post.

Soberania não é slogan de palanque. Ela aparece no porto, no frete e no preço que o produtor recebe. Pedir a Washington que suspenda tarifas, e culpar Lula por elas, pode render voto. Mas não resolve a conta de quem produz e não se paga com discurso.

Há quem diga que, diante disso, a saída é votar em Lula como mal menor para a direita. Quem defende essa tese deve dizer o que ela é: um voto em Lula. Não pedimos que você goste do governo. Pedimos que não entregue a bandeira da direita a quem a usou para agradecer uma tarifa contra o Brasil.

A direita que quer governar o interior precisa de gente que negocie tarifas sem agradecê-las. Isso vale para quem for eleito e para quem fizer oposição a ele.

O mandato começa em janeiro. A bandeira do interior fica com quem a defende depois da eleição, e não com quem a agradeceu no X. O produtor vai continuar pagando a conta das tarifas de qualquer forma. A questão é quem vai falar por ele depois.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em entrevista à CNN Brasil, ele afirmou: “me arrependi da postagem”, ao falar do post de agradecimento a Trump pelas tarifas de 2025. Segundo a Reuters, em julho de 2026 ele atribuiu a Lula a responsabilidade pelas tarifas de 25%.

Como fizemos: Esta é uma coluna de opinião. Os fatos citados vêm de reportagens acessadas em 21 de outubro de 2026: CNN Brasil, Reuters, Agência Brasil, O Globo (via Imirante), Forbes Agro, Estado de Minas e Jornal de Brasília. Os números de exportação e de crédito são os publicados por essas fontes, sem cálculo próprio. Não atribuímos frases a líderes do agro além do que foi publicado pelo O Globo, e a fala deles não foi identificada.

Fontes