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Seca atinge 101 mil famílias no AM; Porto Velho declara desastre

Mais de 101 mil famílias foram afetadas no Amazonas, e a cota de 17,7 metros do Rio Negro virou referência para aprovar a sobretaxa de frete em Manaus.

Imagem de satélite do Rio Negro perto de Manaus, com bancos de areia expostos pela seca e a mancha urbana da cidade à direita
Imagem de satélite de 3 de outubro de 2023 mostra o Rio Negro perto de Manaus na seca daquele ano, com bancos de areia expostos.Foto: Wanmei Liang / NASA Earth Observatory (domínio público)

Em 2 de outubro, o Rio Negro marcou 18,59 metros no Porto de Manaus, 14 centímetros abaixo do dia anterior. Os dados são da página do porto, citada pelo site Clique Petróleo e Gás. Naquele dia, faltavam 89 centímetros para a cota de 17,7 metros.

A cota é o nível da água medido em uma régua, em metros. A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) usa essa marca como referência para aprovar a sobretaxa de seca. É uma cobrança extra no frete, usada quando o rio baixa e os navios levam menos carga.

Amazonas tem 101 mil famílias afetadas

O governo do Amazonas decretou situação de emergência por causa da estiagem. O decreto foi publicado no Diário Oficial do Estado em 21 de setembro e vale por 180 dias. Segundo o Portal Amazônia, ele “pode afetar até 648 mil pessoas nos 62 municípios do estado”. A reportagem não traz a lista de cidades em emergência.

Em boletim divulgado no domingo (18), a Defesa Civil contou mais de 101 mil famílias afetadas, segundo o Correio da Manhã. A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, avaliou à Rádio Encontro das Águas que o quadro ainda não tem as mesmas condições hidrológicas generalizadas de 2023 e 2024.

Porto Velho declara desastre

Em Porto Velho, capital de Rondônia, o Rio Madeira chegou a 2,62 metros em 6 de outubro. A média para o período é de 3,9 metros, segundo o Portal Amazônia. A prefeitura classificou a estiagem como desastre de nível II.

A medida afeta cerca de 23 mil pessoas em 85 localidades, entre áreas rurais, comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas. A Defesa Civil municipal atribui parte do agravamento ao El Niño, aquecimento anormal de parte do Oceano Pacífico.

Sobretaxa de seca: quem paga a conta

Em 15 de setembro, a ANTAQ publicou a regra que analisa a sobretaxa, chamada em inglês de Low Water Surcharge (LWS). Pela regra, a agência aprova, condiciona ou impede cada cobrança, empresa por empresa, segundo a Agência iNFRA. Para 2026, a cota de 17,7 metros segue como referência para homologação, e não como cobrança automática.

Em deliberação assinada em 9 de outubro, a ANTAQ suspendeu a sobretaxa de seca da empresa de navegação MSC. Também não homologou valores de US$ 4.800 por contêiner, segundo a Atlas Público.

A Centronave, entidade do setor de navegação, alerta para risco de interrupção do transporte de cargas para Manaus. Segundo a Agência iNFRA, a impossibilidade de recuperar os custos extras “pode comprometer o abastecimento de Manaus”.

Um estudo da consultoria Alvarez & Marsal, citado pela Centronave, mede o efeito do calado. Calado é a profundidade do casco do navio dentro da água. Com redução de 3,2 metros no calado, a capacidade do navio cai 55% e o custo por contêiner sobe 147%.

O clima aponta para mais seca

O boletim do Painel El Niño, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e de instituições parceiras, prevê El Niño de intensidade muito forte de outubro a dezembro, com 95% de chance, segundo a Agrolink.

Em setembro, o Amazonas teve a maior área com seca entre os estados, com mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), em dados publicados pelo Estadão. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) instalou cerca de 30 pluviômetros novos no estado, aparelhos que medem a chuva. Eles se somam a 73 já existentes, segundo o Correio da Manhã.

O que diz a ANTAQ: A agência diz que a sobretaxa de seca não é proibida nem tabelada, e que a cota de 17,7 metros serve para homologar a cobrança, não para cobrá-la automaticamente. Em reunião de 24 de setembro, o diretor-geral Frederico Dias disse que “a segurança da navegação é inegociável”, segundo a Agência iNFRA. A redação não contatou a agência para esta versão; as posições vêm de publicações.

O que isso significa

Os dados públicos mais recentes sobre o Rio Negro que a redação encontrou são de 2 de outubro. Sem nova leitura do porto, não é possível saber se o rio já chegou a 17,7 metros. Essa é a principal lacuna desta cobertura.

Os números mostram uma seca que já atinge famílias e cidades, e um custo de transporte que pode subir. Quem paga essa conta segue em aberto. Vale acompanhar as próximas leituras do Porto de Manaus e as decisões da agência.

Como fizemos: Usamos a leitura do Rio Negro no Porto de Manaus de 1º e 2 de outubro de 2026, publicada pelo Clique Petróleo e Gás em 4 de outubro, e a cota de referência da ANTAQ, de 17,7 metros. A diferença de 89 centímetros é conta da reportagem do Clique, não cálculo nosso. Os dados de famílias, do decreto e do Rio Madeira vêm de reportagens e documentos citados; não localizamos o boletim original da Defesa Civil. Não localizamos boletins do Serviço Geológico do Brasil (SGB) ou do Cemaden com níveis de rio para outubro; as fontes foram acessadas em 27 de outubro de 2026.

Fontes