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R$ 500 mil do fundo do PL para o irmão de Malafaia

Em 2022, o PL deu a Samuel Malafaia mais de sete vezes a verba média de seus candidatos à Alerj; hoje o partido paga 89% da campanha de Flávio.

O pastor Silas Malafaia, de terno escuro e gravata vermelha, fala ao microfone em um auditório
O pastor Silas Malafaia em abril de 2019; o irmão dele, Samuel, recebeu R$ 500 mil do fundo eleitoral do PL em 2022.Foto: Marcos Corrêa / Presidência da República / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em setembro de 2022, o PL deu R$ 500 mil do fundo eleitoral a Samuel Malafaia. Ele é irmão do pastor Silas Malafaia e disputava uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Os outros candidatos do partido à Alerj receberam, em média, R$ 66 mil, segundo levantamento do Brasil de Fato.

A diferença passa de sete vezes. O fundo eleitoral é dinheiro público, repartido entre os partidos para pagar campanhas. Cada legenda decide quanto entrega a cada candidato. No Rio de 2022, o PL decidiu que o irmão de um dos pastores mais influentes do país valia muito mais que a média.

Um ponto precisa ficar claro: nenhum documento mostra papel de Flávio Bolsonaro nessa escolha. O dado pesa pelo que revela sobre o partido que hoje o lança à Presidência.

O partido que paga a campanha

O PL não é coadjuvante na candidatura de Flávio. Até 1º de outubro de 2026, a campanha dele tinha arrecadado R$ 61,7 milhões. Desse total, R$ 55,2 milhões vieram da direção nacional do PL, segundo o Poder360. São 89% de todo o dinheiro.

As listas de doadores entregues ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não trazem pastores nem igrejas entre os financiadores de Flávio, nem em 2018 nem em 2026. Os maiores doadores individuais deste ano são empresários. Dizer que a religião financia o candidato, portanto, vai além do registro.

O que o registro mostra é outra coisa: um caminho indireto entre fé, dinheiro e a família Bolsonaro. A verba dada ao irmão de Malafaia é um dos pontos desse caminho. Não é o único.

O pastor, o dízimo e o palanque

Silas Malafaia aparece em mais de um capítulo. Em fevereiro de 2024, a Associação Vitória em Cristo, mantida por dízimos e ofertas, bancava os custos do ato de Jair Bolsonaro na Avenida Paulista, segundo o Metrópoles. Depois das críticas, o pastor disse que pagaria do próprio bolso o trio elétrico de R$ 55 mil.

Em maio de 2026, Malafaia declarou apoio a Flávio durante um culto na própria igreja, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec), na Penha, zona norte do Rio. O movimento MBLaico denunciou abuso de poder religioso. Também apontou doação de fonte proibida, já que igrejas não podem doar a campanhas. Segundo a Agência Pública, a denúncia ainda espera decisão.

O apoio teve idas e vindas. Em junho, depois do áudio de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, o pastor se afastou. Em agosto, estava de volta ao lado do candidato. Disse que o apoiava, mas que não organizaria atos de campanha, segundo o Poder360.

Por que isso importa no Rio

Para o eleitor fluminense, a conta começa perto de casa. A Alerj é onde Flávio começou a carreira política. É também onde nasceu o caso da rachadinha, que o levou a ser denunciado em 2020 e nunca julgado. E foi a vaga na Alerj que o PL tratou com verba especial quando o candidato tinha o sobrenome certo.

Fundo eleitoral é dinheiro de todos os contribuintes. Quando um partido concentra a verba em quem tem laços de família com um líder religioso, a pergunta é legítima. O critério foi voto, mérito ou parentesco? O registro reunido nesta reportagem não traz explicação do partido para a divisão de 2022.

A pergunta não é sobre fé. Pastores e fiéis têm todo o direito de participar da política. A pergunta é sobre o uso de dinheiro público por um partido que agora pede a chave do Palácio do Planalto.

O que diz Silas Malafaia: em fevereiro de 2024, após as críticas, o pastor disse que pagaria do próprio bolso o trio elétrico do ato de Jair Bolsonaro. Em 2026, declarou apoio a Flávio, mas afirmou que não organizaria atos de campanha. O registro não traz manifestação do PL sobre a verba dada a Samuel Malafaia em 2022.

No segundo turno de 25 de outubro, Flávio pede voto como o candidato que vai mudar o país. Mas a máquina que paga 89% da campanha dele é a mesma que, no Rio, deu ao irmão de Malafaia mais de sete vezes a verba média. O eleitor tem o direito de cobrar esse padrão antes de levá-lo ao Planalto.

Fontes