SudesteRio de Janeiro
Medalha, emprego para parentes: Flávio e Adriano da Nóbrega
A homenagem de 2005, uma medalha, foi proposta quando o ex-PM estava preso, relata a Exame; anos depois, ele foi apontado como chefe de milícia no Rio.

Flávio Bolsonaro homenageou o ex-policial militar Adriano da Nóbrega duas vezes: em 2003 e em 2005. A segunda homenagem, a Medalha Tiradentes, a maior condecoração da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), foi proposta quando o homenageado estava preso, segundo a Exame. Flávio era, à época, deputado estadual. Anos depois, Nóbrega foi apontado como chefe de milícia no Rio.
Milícia, no Rio, é grupo criminoso armado, em geral formado por policiais, que domina territórios e cobra dos moradores por serviços e “proteção”. Para o eleitor fluminense, o tema é concreto. Ele decide, no dia 25, se quer um presidente com esse histórico na Alerj.
A medalha e o discurso de 2007
A primeira homenagem foi em 2003, uma moção de louvor ao policial. A segunda veio em 2005: uma proposta de Flávio, então deputado estadual, para dar a Nóbrega a Medalha Tiradentes, aprovada pelo plenário da Alerj. Nóbrega estava preso quando a proposta foi apresentada, segundo a Exame.
Em 2007, de novo na Alerj, Flávio defendeu as milícias como um “novo tipo de policiamento”, segundo editorial do Estadão reproduzido pelo site Senge RJ. O jornal cobrou explicações sobre a relação do senador com personagens associados às organizações criminosas do Rio. E avaliou que a candidatura carrega o “risco da ascensão das milícias ao topo do poder”.
Os parentes, o gabinete e o aliado preso
Há mais: parentes de Adriano da Nóbrega integraram o gabinete de Flávio na Alerj, segundo o mesmo editorial. Para o Estadão, esses episódios formam um histórico que precisa ser considerado diante da candidatura. O gabinete também ficou conhecido por outro caso, a rachadinha — o nome dado ao esquema em que assessores repassam parte do salário ao chefe.
No caso da rachadinha, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) denunciou Flávio e 16 outras pessoas em 2020. Os crimes imputados: peculato (desvio de dinheiro público), lavagem de dinheiro e organização criminosa. O processo caiu sem julgamento do mérito — denunciado não é julgado, e anulado não é inocentado.
Em 2021, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou as quebras de sigilo bancário e fiscal de Flávio. Também anulou o uso dos dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), por falta de justificativa adequada. Em 2022, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) rejeitou a denúncia por ela se apoiar em provas anuladas. O relator notou que a conduta descrita podia constituir crimes.
Esse histórico convive com o plano de segurança de Flávio na eleição. O programa registrado propõe reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. Quanto às prisões: 500 mil vagas novas em quatro anos e cinco presídios de segurança máxima no estilo de El Salvador. Prevê ainda o “abate” de criminosos armados com fuzis e castração química para condenados por estupro, segundo o SBT News.
A semana do segundo turno reavivou o assunto. Em 15 de outubro, a Polícia Federal (PF) prendeu Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito, a quem Flávio deu “apoio integral, 100%” para o Senado. Segundo a PF, ele liderava grupo que lavou cerca de R$ 7,6 bilhões em postos de combustível entre 2020 e 2026.
A PF também o investiga por vínculo com a milícia. Canella foi eleito onze dias antes de ser preso. Não há prova ligando Flávio pessoalmente a facções. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve, em 15 de outubro, a remoção de um post que o associava ao Comando Vermelho (CV), por falta de base factual.
O registro dos aliados, porém, é objetivo. O candidato da lei e ordem homenageou um policial preso e empregou parentes dele no gabinete da Alerj. Chamou as milícias de “novo tipo de policiamento” e hoje dá “apoio integral, 100%” a um aliado preso pela PF. No segundo turno de 25 de outubro, o eleitor do Rio decide se quer esse histórico na Presidência.
O que diz Flávio Bolsonaro: Sobre aliados presos, ele disse em 16 de outubro, segundo o Metrópoles, ter sido surpreendido, defendeu o direito de defesa e afirmou que quem tiver vínculo comprovado com o Primeiro Comando da Capital (PCC) ou o CV deve pagar “dentro da lei”. Sobre as homenagens a Adriano da Nóbrega e os empregos de parentes dele, nenhuma defesa específica foi localizada.
Fontes
- Ex-PM estava preso quando recebeu homenagem de Flávio Bolsonaro — Exame
- Estadão diz, em editorial, que vitória de Flávio Bolsonaro pode colocar milicianos na Presidência — Senge RJ
- Segurança pública: veja as propostas de Flávio na íntegra — SBT News
- ‘Competente’, ‘amigo’, ‘sabe trabalhar’: os elogios de Flávio Bolsonaro a Márcio Canella, preso pela PF — CartaCapital
- MP do Rio denuncia 17 investigados por lavagem de dinheiro e peculato — Agência Brasil
- STJ anula quebra de sigilo bancário de Flávio Bolsonaro — Migalhas
- Justiça do Rio rejeita denúncia da rachadinha por se apoiar em provas anuladas — InfoMoney
- Flávio se diz surpreso com prisão de aliados no RJ: ‘pagar dentro da lei’ — Metrópoles



