Sudeste

Segundo a PF, aliado que Flávio apoiou liderava núcleo político do CV

Relatório final da PF cita Rodrigo Bacellar, a quem Flávio sinalizou apoio para suceder Cláudio Castro. A defesa diz que a acusação é arbitrária.

Fachada de prédio neoclássico com colunas, cúpula e estátuas no alto, escadaria e uma estátua de bronze de Tiradentes à frente, sob céu azul
Palácio Tiradentes, sede histórica da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), no Centro do Rio, em julho de 2010.Foto: Halley Pacheco de Oliveira / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Segundo a Polícia Federal (PF), o aliado que Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), apoiou para governar o Rio fazia a “interlocução política necessária à blindagem das ações” do Comando Vermelho (CV), facção criminosa. A frase está no relatório final da investigação, enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), segundo o JB. O aliado é Rodrigo Bacellar, do União Brasil, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Bacellar não foi condenado. Ele está indiciado, ou seja, a PF concluiu a investigação e atribuiu a ele os crimes apurados. A defesa nega a acusação. Segundo investigadores, as ligações dele com a facção tinham motivação eleitoral, já que o CV controla boa parte do território fluminense.

A investigação também mira a TH Joias, que a PF aponta como intermediária de compras de armas para o CV. Em dezembro de 2025, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, Bacellar foi preso sob suspeita de vazar informações da Operação Zargun. A Alerj revogou a prisão dias depois. Segundo o JB, ele passou a cumprir prisão domiciliar à noite, com tornozeleira eletrônica.

Na leitura da PF, o papel de Bacellar era fazer a interlocução política que protegia as ações do grupo. Por isso o relatório fala em “núcleo político”, e não em um integrante comum da facção.

Como presidente da Alerj, Bacellar comandava a Casa que vota as leis e o orçamento do estado. Foi nesse posto que ele ganhou força como nome da sucessão de Castro, segundo o Diário do Rio.

Em maio de 2025, Flávio sinalizou apoio a Bacellar como sucessor de Cláudio Castro no governo do estado. Segundo uma coluna de O Globo, citada pelo Diário do Rio, o senador se aproximou do então presidente da Alerj e o apoiava para disputar o governo em 2026. Segundo a coluna, Flávio também se alinhou a uma manobra que liberou o caminho de Bacellar à vice-governadoria, o que o deixaria como primeiro na linha de sucessão de Castro. A reportagem não traz falas diretas de Flávio.

A tabela mostra as etapas do caso, da aproximação política à acusação da PF.

Bacellar passou de pré-candidato a indiciado em menos de um ano Etapas do caso, de maio de 2025 a março de 2026, segundo a PF e as reportagens citadas

Data O que aconteceu Situação
Maio de 2025 Flávio sinaliza apoio a Bacellar para suceder Cláudio Castro Apoio político
Dezembro de 2025 Moraes ordena a prisão por suspeita de vazar dados da Operação Zargun; Alerj revoga a prisão Prisão revogada; prisão domiciliar noturna e tornozeleira
27 de fevereiro de 2026 PF indicia Bacellar e a TH Joias por vazamento de informações ao CV Indiciado
Março de 2026 Bacellar é preso de novo Preso

Fonte: JB (28/2/2026); Diário do Rio (23/5/2025); Poder360. Elaboração: redação.

O que diz Rodrigo Bacellar: segundo o JB, os advogados dele chamaram o indiciamento de “arbitrário e abusivo” e afirmam que não há prova de que ele tenha participado de crimes. A reportagem é de 28 de fevereiro de 2026.

Regra do TSE vale para os dois lados

Durante a campanha, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pode mandar retirar do ar conteúdos considerados falsos ou sem base. Em 8 de outubro, o tribunal mandou remover postagens de Flávio que associavam o presidente Lula ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao CV, sem base factual. Uma semana depois, em 15 de outubro, o TSE manteve a remoção de uma publicação que ligava o próprio Flávio ao CV, pelo mesmo motivo. O PL diz que o inquérito citado nessa publicação foi arquivado em 2022.

No dia 15 de outubro, a PF também prendeu Márcio Canella (União), ex-prefeito de Belford Roxo, a quem Flávio declarou apoio integral ao Senado em abril. Assim como Bacellar, Canella não foi condenado.

Na sabatina da TV Globo, em 16 de outubro, Flávio disse que “as pessoas têm direito de se defender e provar a sua inocência”. Ele acrescentou que quem “comprovadamente tem envolvimento com coisa errada, com PCC, com Comando Vermelho, tem que pagar dentro da lei”. O Metrópoles descreve que ele se disse surpreso com as prisões, e registra que não citou Bacellar nem Canella pelo nome.

O que isso significa

Os documentos consultados mostram uma sequência: Flávio apoiou um aliado para governar o Rio, e a PF hoje o aponta como líder do núcleo político do CV. Não há, nos documentos consultados, prova que ligue Flávio pessoalmente à facção. A ligação documentada é política.

Bacellar e Canella são alvos de apuração da PF, e nenhum dos dois foi condenado. O relatório sobre Bacellar foi enviado ao STF, segundo o JB, e a defesa dele contesta as acusações. Nas reportagens consultadas, não há manifestação da defesa de Canella.

Para o eleitor do Rio, a questão que os fatos deixam é como o candidato escolhe seus aliados no estado. O governador comanda as polícias estaduais, e a sucessão no governo pesa diretamente na segurança pública.

Como fizemos: Usamos reportagens do JB (28/2/2026), do Diário do Rio (23/5/2025), do Metrópoles (16/10/2026) e do Poder360, acessadas em 21 de outubro de 2026, e as decisões do TSE de 8 e 15 de outubro citadas em nossa pesquisa. Não lemos o relatório da PF: o que citamos vem das reportagens. Os textos do TSE não puderam ser abertos, por bloqueio do site, e as datas dessas decisões vêm do levantamento. Não houve contato prévio com as partes; as posições citadas são as publicadas.

Fontes