SudesteRio de Janeiro

A loja de chocolate que o MP via como lavanderia

O MP-RJ aponta 483 depósitos de assessores de Flávio, somando R$ 2,06 milhões, e lavagem de dinheiro em imóveis de Copacabana e numa loja da rede Kopenhagen.

Loja da rede de chocolates Kopenhagen no Botafogo Praia Shopping, no Rio de Janeiro
Loja da rede de chocolates Kopenhagen em shopping do Rio de Janeiro, em foto de 2012; no caso da rachadinha, o MP-RJ apontou uma loja da rede como suposto meio de lavagem de dinheiro.Foto: Eduardo P / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Em dezembro de 2019, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) fez a conta que persegue Flávio Bolsonaro até hoje. Fabricio Queiroz recebeu R$ 2,06 milhões em 483 depósitos feitos por 13 assessores do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Segundo os promotores, 69% do valor entrou em dinheiro vivo, e Queiroz sacou cerca de R$ 2,9 milhões em espécie.

A promotoria apontou também um destino suspeito. Parte desse dinheiro teria sido lavada em apartamentos de Copacabana e numa loja de chocolates da rede Kopenhagen. A unidade integrava uma franquia de chocolates da qual Flávio foi sócio. Foi esse o papel que o MP-RJ via na loja: uma lavanderia de dinheiro.

O esquema ficou conhecido como rachadinha. Assessores comissionados — cargos de livre nomeação, escolhidos pelo próprio deputado — devolvem parte do salário a um operador do gabinete. Os salários vinham da folha da Alerj, ou seja, dinheiro público do estado do Rio. Segundo a denúncia, os 13 assessores fizeram os 483 depósitos a Queiroz.

Como o caso nasceu

A história começou com um alerta do Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, órgão que rastreia movimentações bancárias suspeitas. Em dezembro de 2018, o conselho flagrou cerca de R$ 1,2 milhão de movimentos atípicos na conta de Queiroz em 2016 e 2017. Segundo o relatório, outros assessores do gabinete também depositaram dinheiro nele.

O Coaf não investiga ninguém: ele apenas avisa os órgãos competentes quando identifica algo fora do padrão. O aviso seguiu ao Ministério Público do Rio.

Lavar dinheiro é fazer valores de origem duvidosa circular como se fossem receita legítima de um negócio. No entendimento do MP-RJ, a loja da Kopenhagen servia a isso. Da movimentação apontada na unidade, apenas R$ 120 mil em transferências bancárias chegaram a ser confirmados na apuração.

Denunciado, nunca julgado

Em outubro e novembro de 2020, o MP-RJ denunciou Flávio, Queiroz e mais 15 pessoas. Os crimes apontados: peculato (desvio de dinheiro público por quem tem cargo público), lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa. Denúncia é a acusação formal que o Ministério Público leva a um juiz para abrir um processo criminal. Esse processo nunca chegou ao mérito.

Julgar o mérito é examinar se o acusado cometeu o crime. Nenhuma instância fez isso. O que os tribunais decidiram foi outra coisa: que as provas tinham sido colhidas sem as justificativas que a lei exige.

Em fevereiro de 2021, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou as quebras de sigilo bancário e fiscal e o compartilhamento dos dados do Coaf, todos mal justificados. Em novembro do mesmo ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou quatro dos cinco relatórios do Coaf usados no caso. Só o primeiro ficou de pé: o alerta de R$ 1,2 milhão.

Sem essas provas, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) rejeitou a denúncia em maio de 2022. O relator registrou, porém, que a conduta descrita pelos promotores poderia constituir crime.

Em fevereiro de 2025, o ministro Gilmar Mendes, do STF, rejeitou os dois últimos recursos do MP-RJ e deixou claro que uma nova denúncia continua juridicamente possível. Nenhuma veio. A decisão de denunciar de novo é da própria promotoria — e, até aqui, ela não o fez.

O que diz Flávio Bolsonaro: ele nega a existência de qualquer esquema, afirma que Queiroz agia sozinho e sustenta que as provas foram obtidas de forma ilegal. Classifica o caso como perseguição política.

No dia 25 de outubro, o eleitor fluminense decide no segundo turno se entrega a Presidência ao senador eleito pelo Rio. O registro público que fica é este: Flávio foi denunciado por um esquema que teria drenado salários da folha da Assembleia fluminense e nunca foi julgado sobre o mérito. As provas foram anuladas por falha de procedimento — e anulado não é inocentado. O que de fato passou pela loja de chocolate segue sem resposta na Justiça.

Fontes