SudesteRio de Janeiro
Escola das filhas de Flávio paga em espécie: o vídeo que o MP obteve
Câmeras de um banco flagraram Fabricio Queiroz pagando em espécie os boletos da escola das filhas de Flávio; o MP-RJ obteve as imagens em junho de 2020.

Em junho de 2020, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) obteve um vídeo que se tornou peça central do caso da rachadinha. As câmeras de segurança de um banco mostram Fabricio Queiroz pagando em dinheiro vivo os boletos da escola das filhas do então senador Flávio Bolsonaro. A informação é do site Poder360.
Boleto é o documento de cobrança usado no Brasil para pagar contas em banco, lotérica ou aplicativo. Pagar em espécie quer dizer entregar notas, sem transferência entre contas. O homem que quita as mensalidades escolares da família nas imagens é o mesmo apontado pelos promotores como operador do gabinete. Naquele momento, esse gabinete era investigado por um esquema de salários.
Queiroz é a figura central da rachadinha. Na descrição da acusação, assessores do gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) devolveriam parte dos salários a um operador.
O caso começou em dezembro de 2018, com um alerta do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O órgão apontou cerca de R$ 1,2 milhão em movimentações atípicas na conta de Queiroz entre 2016 e 2017, segundo a reportagem do Metrópoles. Outros assessores do gabinete também haviam depositado dinheiro a ele, segundo o mesmo relatório.
Em dezembro de 2019, os promotores apresentaram a versão que tinham apurado. Segundo a acusação, noticiada pela Gazeta, Queiroz recebeu R$ 2,06 milhões em 483 depósitos feitos por 13 assessores. Dos depósitos, 69% eram em dinheiro vivo; os saques somaram cerca de R$ 2,9 milhões em espécie. Os promotores apontaram ainda lavagem de dinheiro por apartamentos em Copacabana e por uma loja Kopenhagen.
No mesmo período das imagens, em junho de 2020, Queiroz foi preso em Atibaia, no interior de São Paulo. A prisão aconteceu numa propriedade de Frederick Wassef, advogado de Flávio na época, segundo a CNN Brasil. Com isso, o caso saiu dos salários do gabinete e chegou à rotina financeira da família do então senador.
O caso hoje
As imagens da escola viraram base da denúncia — que depois caiu por questões processuais. Em outubro e novembro de 2020, promotores do Rio denunciaram 17 pessoas, entre elas Flávio e Queiroz, segundo a Agência Brasil. As acusações: peculato (desvio de dinheiro público por quem exerce cargo), lavagem de dinheiro e organização criminosa. Nenhum dos denunciados chegou a ser julgado.
Em fevereiro de 2021, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou as quebras de sigilo bancário e fiscal de Flávio, segundo o site Migalhas. O tribunal também anulou o compartilhamento dos dados do Coaf, por considerá-los mal justificados. Foi a primeira grande queda das provas.
Em maio de 2022, com essas peças fora do processo, o Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) rejeitou a denúncia, sem julgar o mérito. O relator observou que a conduta descrita poderia configurar crime, segundo o InfoMoney.
Em fevereiro de 2025, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), rejeitou os dois últimos recursos dos promotores, segundo o Poder360. O ministro observou que as anulações não impedem o Ministério Público de oferecer uma nova denúncia. Até hoje, nenhuma nova denúncia foi apresentada.
O estado do caso é este: denunciado, nunca julgado. O processo erguido sobre as imagens do banco caiu por anulação de provas, sem julgamento do mérito. Anulado não é inocentado — e a acusação, por lei, pode recomeçar.
O que diz Flávio Bolsonaro: O senador nega que tenha existido esquema no gabinete e sustenta que Queiroz agia sozinho. Ele afirma que as provas foram obtidas ilegalmente e classifica o caso como perseguição política.
A rachadinha é um caso carioca de origem: nasceu dos salários de assessores de um gabinete da Alerj, virou apuração do MP-RJ e chegou aos tribunais superiores. O vídeo da escola é o registro mais concreto do que os promotores descreviam. Nele, a mensalidade das filhas de um senador é paga em notas pelo operador investigado do gabinete. No segundo turno de 25 de outubro, o eleitor decide o voto da Presidência com esse registro na memória.
Fontes
- MP-RJ obteve imagens de Queiroz pagando boletos de Flávio Bolsonaro — Poder360
- Rachadinha: relação com família Bolsonaro e prisão; entenda o caso Queiroz — CNN Brasil
- Queiroz fez saques de R$ 661 mil em 18 meses, segundo Coaf — Metrópoles
- Queiroz recebeu R$ 2 milhões em depósitos de 13 indicados por Flávio, diz MP — A Gazeta
- MP do Rio denuncia 17 investigados por lavagem de dinheiro e peculato — Agência Brasil
- STJ anula quebra de sigilo bancário de Flávio Bolsonaro — Migalhas
- TJ-RJ rejeita denúncia contra Flávio Bolsonaro por rachadinha — InfoMoney
- Gilmar nega pedido para reabrir ação contra Flávio por rachadinha — Poder360



