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51 imóveis com dinheiro vivo: o patrimônio da família Bolsonaro

Ao menos 51 dos 107 imóveis da família Bolsonaro foram pagos em dinheiro vivo, somando R$ 25,6 milhões; 25 aparecem nas apurações da rachadinha.

Edifícios residenciais de vários andares na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, com céu claro ao fundo e vegetação no primeiro plano
Edifícios residenciais na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, em foto de janeiro de 2008; imagem ilustrativa, não retrata imóveis da família Bolsonaro.Foto: Vinicius Moreira Rodrigues / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Ao menos 51 imóveis comprados pela família Bolsonaro foram pagos, no todo ou em parte, em dinheiro vivo. Juntas, essas compras somam R$ 13,5 milhões — R$ 25,6 milhões em valores corrigidos. O levantamento é do UOL, publicado em agosto de 2022 e reproduzido pelo site Congresso em Foco.

No total, a família negociou 107 imóveis. Ao menos 25 dessas compras aparecem nas apurações da rachadinha — o caso que nasceu no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Ele comandava o gabinete quando era deputado estadual.

A apuração do UOL, porém, tem um limite claro: ela não identificou qual foi a participação individual de Flávio nas compras em espécie. E nenhuma denúncia contra o senador decorreu dessas aquisições.

O que os números dizem

Comprar imóvel com dinheiro em notas chama a atenção do sistema financeiro. A transferência bancária registra quem pagou, quando e de qual conta. O dinheiro vivo não deixa esse rastro. Para flagrar isso existe o Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, que recolhe dos bancos os avisos de movimentação atípica.

O caso da rachadinha começou exatamente aí. Um alerta do Coaf apontou cerca de R$ 1,2 milhão em movimentações atípicas na conta de Fabricio Queiroz entre 2016 e 2017, segundo a reportagem do Metrópoles. Queiroz recebia depósitos de assessores do gabinete de Flávio na Alerj, segundo o mesmo relatório.

Em dezembro de 2019, promotores do Rio apontaram que Queiroz recebeu R$ 2,06 milhões em 483 depósitos feitos por 13 assessores, segundo a Gazeta. Segundo a acusação, 69% desses depósitos eram em dinheiro vivo, e os saques somaram cerca de R$ 2,9 milhões em espécie. Os promotores alegaram ainda lavagem de dinheiro por apartamentos em Copacabana e por uma loja Kopenhagen.

É nesse contexto que o patrimônio da família ganha escala. Os R$ 25,6 milhões corrigidos em compras de imóveis em espécie equivalem a mais de dez vezes os R$ 2,06 milhões que, segundo a acusação, passaram pela conta de Queiroz. A aritmética não prova crime — mostra apenas a escala do dinheiro em notas que cercava a família e o gabinete.

Denunciado, nunca julgado

A denúncia contra Flávio existiu — o julgamento, não. Em outubro e novembro de 2020, o Ministério Público do Rio ofereceu denúncia contra 17 pessoas, entre elas Flávio e Queiroz, segundo a Agência Brasil. As acusações: peculato (desvio de dinheiro público por quem exerce cargo), lavagem de dinheiro e organização criminosa.

A denúncia começou a cair em 2021, por razões processuais. O Supremo Tribunal Federal (STF) anulou quatro dos cinco relatórios do Coaf usados no caso e manteve o primeiro, o de R$ 1,2 milhão, segundo o Poder360.

Com as provas anuladas, o Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) rejeitou a denúncia em maio de 2022, sem julgar o mérito. O relator observou, porém, que a conduta descrita poderia configurar crime, segundo o InfoMoney.

Em fevereiro de 2025, o ministro Gilmar Mendes, do STF, rejeitou os dois últimos recursos dos promotores — e assinalou que nada impede uma nova denúncia, segundo o Poder360. Nenhuma nova denúncia foi encontrada até hoje.

O retrato fiel do caso é este: denunciado, nunca julgado. As provas foram anuladas por questões processuais, sem julgamento do mérito. Anulado não é inocentado — e o Ministério Público pode, por lei, recomeçar.

O que diz Flávio Bolsonaro: O senador processou os repórteres da reportagem do UOL por difamação. Em setembro de 2022, uma decisão judicial chegou a mandar apagar as matérias do ar. O ministro André Mendonça, do STF, derrubou a ordem na mesma noite, segundo o Poder360.

Para o eleitor do Rio, a rachadinha não é um caso de Brasília. Ela nasceu na Alerj, com os salários dos assessores de um gabinete fluminense, e subiu para o Senado junto com o nome de Flávio. No segundo turno de 25 de outubro, o voto será decidido com esses números na mesa. São 107 imóveis negociados, ao menos 51 comprados com dinheiro vivo e 25 dentro das apurações — e nenhuma explicação julgada sobre a origem do dinheiro.

Fontes