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Sem números: o plano de saúde de Flávio não diz quanto vai investir

O plano de Flávio promete OSs, telessaúde e prontuário compartilhado, mas não traz valores; o "tesouraço" prometido também não tem cifra.

Grupo de homens de terno conversa sentado em sofás claros em um gabinete, com bandeiras ao fundo
O médico Claudio Lottenberg, então presidente do Hospital Albert Einstein, e comitiva em reunião com o então vice-presidente Michel Temer, em março de 2015; Lottenberg é o nome de Flávio para a Saúde.Foto: Anderson Riedel / Vice-Presidência da República / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O plano de governo de Flávio Bolsonaro tem um capítulo sobre saúde, mas não tem um número sobre saúde. O documento promete mais parcerias com o setor privado, um prontuário eletrônico compartilhado com hospitais particulares e mais telessaúde. Não diz quanto dinheiro vai colocar em nada disso.

A crítica foi feita pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), central sindical alinhada ao PT. É uma crítica de um adversário político. Mas as reportagens sobre o plano, como as da Agência Brasil e do site DC Mais, também não registram valores para a área.

O plano sem cifras

Na saúde, o plano aposta em organizações sociais, as OSs. São entidades privadas sem fins lucrativos que administram hospitais e serviços públicos por contrato. A ideia é ampliar o modelo para hospitais e procedimentos complexos.

O plano também se define pelo que deixa de fora. Não há vales para atendimento na rede privada, parcerias público-privadas (PPPs) nem planos de saúde populares. Não há mudança no piso da saúde. E não há, em nenhum desses itens, um valor previsto.

Para comandar o Ministério da Saúde, Flávio anunciou em 28 de agosto o médico Claudio Lottenberg, ex-presidente do Hospital Albert Einstein. Lottenberg defende a gestão privada na saúde pública, segundo a Itatiaia. No debate da Band, Flávio prometeu um “SUS padrão Einstein”.

Um plano que promete o nível de atendimento de um hospital privado de ponta sem dizer de onde sai o dinheiro deixa o eleitor sem a informação mais importante.

O “tesouraço” também sem valor

O silêncio sobre números vai além da saúde. O plano registrado promete um “tesouraço” nos gastos públicos e o corte de pelo menos dez ministérios. Não informa, porém, quanto pretende economizar, segundo a Forbes.

Tesouraço, na linguagem da campanha, é um corte duro de despesas. Sem um valor, o eleitor não consegue saber o tamanho do corte nem quais áreas seriam atingidas. A saúde pode estar entre elas ou não. O plano não esclarece.

Em 18 de outubro, no debate da Band, Flávio deu outro sentido à palavra. Disse que o tesouraço seria um corte na corrupção do governo Lula, segundo o Poder360. A mudança de discurso não trouxe nenhum número novo.

Os números que apareceram vieram de fora do plano. Segundo a Folha de S.Paulo, a equipe econômica de Flávio estudou um corte de cerca de R$ 250 bilhões em despesas obrigatórias. O valor equivale a perto de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz em um ano. O pacote incluía corrigir o piso da saúde só pela inflação, e não mais pela arrecadação. A campanha diz que a ideia não está no plano.

Promessas de um lado, cortes do outro

Ao mesmo tempo, Flávio promete gastar. Em 16 de outubro, disse à Globo que não vai mudar a Constituição para alterar os pisos de saúde e educação, relatou O Liberal. Na mesma ocasião, prometeu manter os ganhos reais do salário mínimo e não desvincular dele o reajuste das aposentadorias.

Prometer mais gasto e um grande corte, sem números para nenhum dos dois, não fecha a conta. Alguém vai pagar a diferença. O plano não diz quem.

Para as prefeituras, a falta de números tem efeito prático. O município precisa planejar quantas equipes vai contratar e quantos postos vai manter abertos. Parte importante desse dinheiro depende de repasses federais. Sem saber o que vem de Brasília, o prefeito planeja no escuro. E, quando a conta não fecha, ela costuma chegar ao município.

O que diz Flávio Bolsonaro: o candidato afirma que não vai mudar a Constituição para alterar os pisos de saúde e educação. No debate da Band, descreveu o tesouraço como um corte na corrupção, e não nos programas sociais. A campanha diz que o estudo sobre o piso da saúde não está no plano.

Um plano de governo serve para o eleitor saber o que vai receber. No dia 25 de outubro, o de Flávio pede um voto de confiança na área mais sensível para quem depende do SUS. Promete padrão Einstein, gestão privada e tesouraço, mas não diz quanto custa nem quem paga. Na saúde pública, promessa sem orçamento não vira atendimento.

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