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O prontuário único que Flávio promete já existe

Checagem do Aos Fatos sobre a entrevista de Flávio à Globo mostrou que o prontuário eletrônico unificado prometido no plano de governo já existe no SUS.

Fachada de mármore branco com as letras douradas do Ministério da Saúde, ao lado de uma calçada arborizada, em Brasília
Fachada do Ministério da Saúde, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, em março de 2020.Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Uma das promessas de Flávio Bolsonaro para a saúde é criar um prontuário eletrônico unificado. Há um problema: ele já existe. A constatação é do Aos Fatos, que checou a entrevista do candidato à Globo, em 16 de outubro.

O prontuário é o registro do histórico de saúde de cada paciente. Nele ficam consultas, exames, diagnósticos e remédios receitados. Quando é unificado e eletrônico, o médico de um posto pode ver o que outro profissional anotou em outra unidade. Isso pode evitar exames repetidos e erros de medicação.

É uma ferramenta útil, e a ideia não é ruim. O problema é a promessa vazia. Justamente por ser uma ferramenta conhecida, prometer criar o que já existe diz muito sobre o cuidado com que o plano foi escrito.

O que o plano promete de fato

O plano de Flávio, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), prevê um prontuário eletrônico nacional compartilhado com hospitais privados. Prevê também mais telessaúde e mais parcerias com o setor privado e com organizações sociais, as OSs. As informações são da Agência Brasil e do site DC Mais.

O plano também se define pelo que não tem. Não há vales para atendimento na rede privada, parcerias público-privadas (PPPs) nem planos de saúde populares. Também não há mudança no piso da saúde, segundo as reportagens sobre o documento.

Se o prontuário já existe, a novidade real da proposta é outra. É abrir o histórico de saúde dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) também à rede particular. Isso pode ter vantagens para quem é atendido nos dois sistemas. Mas exige regras claras sobre quem acessa os dados e para quê.

O futuro ministro escolhido por Flávio ajuda a entender a direção. É o médico Claudio Lottenberg, ex-presidente do Hospital Albert Einstein, que defende a gestão privada na saúde pública, segundo a Itatiaia.

Um padrão nas checagens

O prontuário não foi o único problema apontado na mesma entrevista. O Aos Fatos mostrou que Flávio omitiu as próprias declarações e as de sua equipe ao chamar de “terrorismo” a acusação de que privatizaria a Petrobras. Em 2022, ele defendeu privatizar a empresa. Em 2025, falou em vender partes dela.

Não é um caso isolado. O Aos Fatos contou ao menos 43 declarações falsas de Flávio sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. A Lupa classificou como falsa a afirmação dele de que os detalhes do contrato do filme Dark Horse já tinham sido mostrados.

Na mesma entrevista à Globo, Flávio fez uma promessa que merece registro. Disse que não vai mudar a Constituição para alterar os pisos de saúde e educação, relatou O Liberal. O piso da saúde é o gasto mínimo obrigatório do governo federal com o SUS.

Por que isso importa no posto de saúde

Para quem usa o SUS na sua cidade, o prontuário é coisa concreta. Ele depende de computador funcionando, internet no posto e profissional treinado para usá-lo. Uma proposta séria diria como melhorar isso onde ainda não funciona bem. A telessaúde, outro item do plano, é o atendimento a distância, por vídeo ou telefone, com apoio de especialistas. Ela também depende de conexão e equipamento nos postos.

A Central Única dos Trabalhadores (CUT), central sindical alinhada ao PT, aponta que o plano não traz valores de investimento em saúde. É a crítica de um adversário, mas a pergunta é legítima. Sem dinheiro previsto, nenhuma promessa sai do papel, nem mesmo a de criar o que já existe.

O que diz Flávio Bolsonaro: o registro não traz resposta da campanha à checagem sobre o prontuário. Na mesma entrevista à Globo, o candidato prometeu não mudar a Constituição para alterar os pisos de saúde e educação.

O eleitor tem até o dia 25 de outubro para comparar promessas. Um plano de governo é a carta de intenções de quem quer administrar o maior sistema público de saúde do país. Quando ele promete inventar uma ferramenta que o SUS já usa, a dúvida é inevitável. Quem escreveu o plano conhece o SUS que pretende comandar?

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