PF apura condições de financiamento do BRB para mansão de Flávio
Empréstimo de R$ 3,1 milhões do BRB para a mansão de Flávio, a 3,71% ao ano, entra na apuração da PF; ele diz que a operação foi legal.

Em 2021, o Banco de Brasília (BRB) financiou R$ 3,1 milhões para o senador Flávio Bolsonaro (Partido Liberal, PL-RJ) comprar uma mansão em Brasília. O banco é ligado ao governo do Distrito Federal. Segundo reportagem do O Globo, citada pelo JB, os juros ficaram abaixo da média do banco na época.
Desde 2 de outubro de 2026, a Polícia Federal (PF) examina as condições desse financiamento. A mansão custou cerca de R$ 6 milhões. O contrato previa 360 parcelas, com taxa de 3,71% ao ano.
A média do BRB para operações semelhantes era de cerca de 4,85%, segundo o Diario de Pernambuco. A diferença, de cerca de 1,1 ponto percentual, não prova irregularidade por si só. Até a publicação das reportagens, não havia conclusão da PF nem denúncia sobre o financiamento.
Um contrato abaixo da média
A tabela resume o contrato, com as taxas em percentual ao ano.
Contrato de 2021 ficou abaixo da média do BRB Valores e taxa do financiamento; média do banco segundo reportagem de 2 de outubro de 2026
| Item | Valor |
|---|---|
| Valor financiado pelo BRB | R$ 3,1 milhões |
| Preço da mansão | cerca de R$ 6 milhões |
| Taxa anual do contrato | 3,71% |
| Média do banco na época | cerca de 4,85% |
| Diferença entre as taxas | cerca de 1,1 ponto percentual |
| Prazo previsto | 360 parcelas (30 anos) |
Fonte: JB e Diario de Pernambuco (2/10/2026); Congresso em Foco (4/7/2024). Diferença calculada pela redação. Elaboração: redação.
Em 2021, a Folha, republicada pelo Jornal de Brasília, informou uma taxa de 3,65%, condicionada à portabilidade do salário e a outros produtos do banco. As reportagens de 2026 falam em 3,71%, e as fontes consultadas não explicam a diferença.
A mesma reportagem de 2021 informou que a parcela consumiria metade da renda somada do casal, e que essa renda ficava abaixo do mínimo que o banco exigia para esse tipo de empréstimo. O BRB respondeu que suas taxas estão disponíveis a todos os clientes, conforme a análise de risco de crédito. Segundo aquela reportagem, a assessoria de Flávio não havia se manifestado até a publicação.
O caso não é novo. Em 2021, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) abriu um procedimento após representação do deputado federal Ivan Valente, de São Paulo. O objetivo era saber se o empréstimo saiu das condições normais do banco para qualquer cliente.
Naquela época, Flávio disse, em nota, que a compra foi paga com a venda de um imóvel no Rio de Janeiro, e negou irregularidades, segundo o Jornal de Brasília. O MPDFT afirmou que o patrimônio do senador não seria analisado ali, porque essa tarefa cabe ao Ministério Público Federal (MPF).
Auditoria, renda e quitação
Depois da troca de comando no BRB, a nova direção contratou uma auditoria independente. O relatório apontou supostas irregularidades na operação e foi entregue à PF em fevereiro, segundo o JB. O presidente do banco na época do contrato, Paulo Henrique Costa, hoje está preso, por envolvimento no esquema de fraudes atribuído a Daniel Vorcaro, do Banco Master, segundo o mesmo jornal.
Flávio declarou renda mensal de R$ 56 mil e disse que podia pagar as parcelas, segundo o JB e o Midiamax. Em 2024, o Congresso em Foco, citando o Estadão, informou que ele quitou o financiamento em cerca de três anos. Foram seis pagamentos extras, que somam R$ 3,4 milhões.
Para o Distrito Federal, o caso tem peso próprio. O banco está ligado ao governo local, e a auditoria que levou o caso à PF foi encomendada depois da troca de comando.
Três perguntas ficam para a apuração. A taxa foi a mesma que outros clientes receberiam? A renda declarada cumpria o mínimo do banco? Quais irregularidades a auditoria aponta, exatamente? As reportagens consultadas não respondem a nenhuma delas. Quem deve dizer se houve favorecimento é a investigação, e não a campanha.
O que diz Flávio Bolsonaro: segundo o JB e o Midiamax, ele afirma que a compra foi legal e foi paga com a venda do imóvel onde morava e com a participação em uma loja de chocolates. Em 2024, disse que “todos os recursos, como sempre, são lícitos e fruto do suor de meu trabalho”. Na reportagem de 2 de outubro, a defesa ainda não havia se manifestado sobre a apuração da PF.
O que isso significa
O que está documentado é um financiamento de 2021 com taxa abaixo da média do próprio banco, uma auditoria que apontou supostas irregularidades e uma apuração da PF que segue aberta. O que falta é uma conclusão da PF sobre favorecimento. Nenhuma das reportagens consultadas traz essa conclusão.
Flávio já é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) no caso Dark Horse, que apura suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas a Daniel Vorcaro. A mansão é outra apuração. Para quem vota em 25 de outubro, a pergunta que resta é se a PF vai confirmar algum favorecimento no contrato do BRB.
Como fizemos: Usamos três reportagens de 2 de outubro de 2026 (JB, Diario de Pernambuco e Midiamax), uma de 2021 do Jornal de Brasília, que republica a Folha, e uma de 2024 do Congresso em Foco. Todas foram acessadas em 21 de outubro de 2026. A diferença entre as taxas é cálculo nosso: 4,85% menos 3,71% dá cerca de 1,1 ponto percentual, sem correção pela inflação, porque as taxas são da mesma época. Não tivemos acesso ao contrato, ao relatório de auditoria nem ao inquérito. As fontes divergem: a taxa de 2021 foi de 3,65%; o Congresso em Foco usa R$ 3,4 milhões como valor do financiamento e cita salário bruto de R$ 33 mil em 2021, números que não batem com os R$ 3,1 milhões e a renda de R$ 56 mil das reportagens de 2026. Não houve contato prévio com as partes; a posição de Flávio é a publicada.
Fontes
- PF apura condições de financiamento do BRB a Flávio Bolsonaro para mansão de R$ 6 milhões — Diario de Pernambuco
- PF investiga financiamento de mansão de Flávio Bolsonaro em Brasília — JB
- PF investiga empréstimo do BRB para compra de mansão de R$ 6 milhões — Midiamax
- Ministério Público investiga empréstimo de banco a Flávio Bolsonaro para compra de mansão — Jornal de Brasília (2021)
- Flávio Bolsonaro quita mansão com seis pagamentos extras de R$ 3,4 milhões — Congresso em Foco (2024)
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil



