Centro-OesteGoiás

Empresa dos EUA acorda compra de mina de terras raras em Goiás

Acordo de US$ 2,8 bilhões pela Serra Verde contrasta com a oferta de Flávio Bolsonaro de parcerias minerais com os Estados Unidos.

Senador Flávio Bolsonaro, de terno escuro e gravata, fala diante de um microfone da TV Senado
Flávio Bolsonaro concede entrevista à TV Senado, em Brasília.Foto: Carlos Moura / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Em 20 de abril de 2026, a empresa americana USA Rare Earth acordou comprar a Serra Verde, em Goiás, por US$ 2,8 bilhões. A Serra Verde é a única mina comercial de terras raras do Brasil. Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados em ímãs e equipamentos eletrônicos.

No mesmo período, o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresentou o Brasil aos Estados Unidos (EUA) como alternativa à China nesse setor. Os dois fatos envolvem o mesmo mineral, mas não são a mesma coisa. Esta reportagem separa o que foi negociado do que foi prometido.

Reserva é o que existe no subsolo. Produção é o que sai da mina. Por isso, o acordo trata de uma mina em operação, e não de todo o potencial brasileiro.

O que foi negociado em Goiás

Segundo a Reuters, a compra da Serra Verde tem financiamento de US$ 565 milhões fechado com o governo dos Estados Unidos. Toda a produção da mina vai para um comprador apoiado pelos EUA. Pela conta da redação, o financiamento americano equivale a cerca de 20% do preço da compra. Na prática, dinheiro público dos EUA ajuda a pagar uma mina goiana cuja produção já tem destino. O acordo trata da empresa que controla a mina, não de todas as reservas brasileiras.

Do lado do governo federal, Lula sancionou em 16 de setembro a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras. A lei cria um conselho que pode analisar a compra de empresas brasileiras por estrangeiros, segundo o JB. Ou seja, o Estado ganha uma ferramenta para olhar negócios como o da Serra Verde.

O que Flávio prometeu aos EUA

Em 28 de março, no Texas, Flávio discursou na Conservative Political Action Conference (CPAC), uma conferência conservadora americana. Ele disse que o Brasil pode ser a saída dos EUA para a dependência da China em terras raras. Ele também pediu que o “mundo livre” acompanhasse a eleição brasileira, segundo a Poder360.

Nos dias 26 e 27 de maio, Flávio se encontrou com Donald Trump na Casa Branca e, no dia seguinte, com Marco Rubio. Segundo a CNN Brasil, ele prometeu parcerias de longo prazo com os EUA em terras raras, com investimento protegido.

O resumo de Brasil de Fato sobre o plano dele fala em mais processamento no país. Ele cita o Estado como regulador e não como dono, capital estrangeiro, transferência de tecnologia e licenciamento mais simples. A reportagem é de veículo de esquerda, e o resumo foi usado com essa ressalva.

Em 12 de setembro, veio a público uma apresentação de 22 páginas com a marca “Flávio Bolsonaro, 2026 Campaign”. O documento propõe uma aliança mineral com os EUA, mudanças nas regras de mineração e investimentos de US$ 50 a 100 bilhões. O autor, André Marinho (Novo), disse que foi um exercício pessoal e que o documento nunca foi enviado.

Em 9 de outubro, a Reuters informou que o acesso dos EUA aos minerais brasileiros é um dos principais pontos de impasse em um grupo de trabalho sobre tarifas. Ou seja, o tema dos minerais está ligado à negociação comercial com Washington. A reportagem trata o ponto como negociação em andamento, não como acordo fechado.

No debate da Band, em 18 de outubro, Lula perguntou se Flávio entregaria terras raras aos EUA. Flávio respondeu que foi aos Estados Unidos para defender empresas brasileiras. As reportagens divergem sobre se ele negou diretamente a cessão.

A tabela abaixo junta essas datas, cada uma com o tipo de fato.

Promessas de Flávio correm ao lado do acordo da Serra Verde Principais fatos de 2026, por data e tipo

Data O que aconteceu Tipo
28 de março Flávio diz no CPAC, no Texas, que o Brasil pode ser alternativa à China em terras raras Promessa de Flávio
20 de abril USA Rare Earth acorda compra da Serra Verde por US$ 2,8 bilhões Negócio
26 e 27 de maio Flávio se encontra com Trump e Rubio e fala em parcerias de longo prazo Promessa de Flávio
12 de setembro Apresentação com a marca da campanha propõe aliança mineral com os EUA Documento
16 de setembro Lula sanciona a política de minerais críticos, com conselho para analisar compras estrangeiras Lei
9 de outubro Reuters: acesso dos EUA aos minerais é impasse em grupo sobre tarifas Reportagem
18 de outubro No debate da Band, Lula pergunta se Flávio entregaria terras raras aos EUA Debate

Fonte: reportagens citadas no texto. Elaboração: redação.

O que diz Flávio Bolsonaro: No debate da Band, em 18 de outubro, ele chamou de fake news a pergunta sobre entregar terras raras aos EUA e disse que foi aos Estados Unidos para defender empresas brasileiras, segundo o Correio Braziliense. As reportagens consultadas não registram resposta dele sobre o documento de setembro.

O que isso significa

A diferença está no controle sobre as compras. A política sancionada por Lula cria um conselho que pode analisar essas operações. O plano de Flávio, pelo resumo consultado, favorece capital estrangeiro e licenciamento mais rápido.

O que está em aberto é o destino da produção. Se a compra da Serra Verde for concluída como acordada, a produção de Goiás ficará com um comprador ligado aos EUA. Até agora, as fontes consultadas não mostram nenhum tratado firmado por Flávio com os EUA. Também não encontramos nenhum funcionário americano oferecendo alívio de tarifas em troca de minerais. O segundo turno, em 25 de outubro, decide qual desses caminhos o país segue.

Como fizemos: Reunimos reportagens e a apresentação de setembro, citada pela imprensa, acessadas em 21 de outubro de 2026. Os valores do acordo, US$ 2,8 bilhões e US$ 565 milhões, vêm da Reuters. A proporção de cerca de 20% é cálculo nosso: US$ 565 milhões divididos por US$ 2,8 bilhões. O documento de setembro não foi publicado na íntegra, e descrevemos apenas o que as reportagens citam.

Fontes