Opinião

Flávio pede ajuda à Faria Lima e promete criminoso "abatido" na favela

Opinião: quem defende a polícia sabe que o crime se vence seguindo o dinheiro; Flávio reserva o fuzil para a favela e só um pedido educado ao mercado.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Brasil Profundo.

Trânsito intenso de carros na Avenida Faria Lima, em São Paulo, com prédios comerciais altos ao fundo sob céu nublado
A Avenida Faria Lima, no bairro do Itaim Bibi, centro financeiro de São Paulo, em dezembro de 2024.Foto: Fronteira / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, aprendemos uma lição com o combate à corrupção: o crime se vence seguindo o dinheiro. Flávio Bolsonaro parece ter aprendido outra. Para a favela, o plano dele reserva o fuzil. Para a Faria Lima, um pedido educado.

O plano registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) prevê que o criminoso armado com fuzil seja “abatido”. Promete cinco presídios gigantes de segurança máxima e declarar PCC, CV e milícias como “narcoterroristas”, segundo o SBT News. É linguagem de guerra, e a guerra tem endereço: o morro.

Em 18 de junho de 2026, Flávio foi à Faria Lima, o coração financeiro de São Paulo. Pediu ao mercado que ajudasse a sufocar financeiramente os grupos narcoterroristas. Não apresentou nenhuma medida concreta de fiscalização sobre o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a Receita ou as fintechs, segundo a Gazeta do Povo. Quem falou em mirar fintechs de fachada foi o aliado Derrite, não o plano.

Onde o dinheiro do crime mora

Não é por falta de exemplo. Em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto cumpriu mais de 350 mandados em oito estados. Segundo o Poder360, mais de mil postos de combustível movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Uma fintech que funcionava como “banco paralelo” movimentou mais de R$ 46 bilhões.

O dinheiro do PCC não está escondido debaixo do colchão de um barraco. Está em fundos, fintechs e postos de gasolina com CNPJ. Quem quer combater facção de verdade precisa ir até lá, com auditor, delegado e quebra de sigilo.

É justo dizer que nenhuma reportagem liga o dinheiro de Flávio ao PCC. Ninguém aqui afirma isso. O problema é de ênfase: para o crime de chinelo, abate; para o crime de terno, cooperação voluntária.

Os aliados que a PF prendeu

A ênfase fica mais desconfortável quando se olha para os aliados. Em abril de 2026, Flávio deu “apoio integral, 100%” a Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, para o Senado. Canella foi preso pela Polícia Federal (PF) em 15 de outubro. Segundo a PF, ele comandava um grupo que lavou cerca de R$ 7,6 bilhões em postos de combustível, de 2020 a 2026.

Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, era o nome que Flávio apoiava para suceder Cláudio Castro no governo. Segundo o relatório final da PF, relatado pelo Jornal do Brasil, ele exercia a liderança do “núcleo político” do Comando Vermelho. Os advogados dele chamam a acusação de arbitrária.

Nenhum dos dois foi condenado. Mas bandido bom é bandido preso, inclusive quando é aliado. Quem pede o abate na favela não pode pedir paciência para os amigos.

E há o “irmão”. Flávio chamou assim o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a quem pediu US$ 24 milhões para um filme sobre o pai, segundo o Intercept. Por esse caso, Flávio é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF), não réu.

O que nós cobramos

Reconheço o que é justo. Flávio votou a favor do projeto antifacção, aprovado no Senado por 64 a 0 em dezembro de 2025. Não é pouco. Mas um voto unânime não faz de ninguém o candidato da lei e da ordem.

Lei e ordem de verdade não escolhe classe social. Rastreia munição, segue o dinheiro e prende o chefe, more ele no morro ou na cobertura. O que Flávio oferece é o contrário: duro na favela, vago na Faria Lima.

Não peço a ninguém que goste de Lula. Peço que não entregue a bandeira da lei e da ordem a quem só a levanta de um lado da cidade. A direita que defende a polícia merece um candidato que a mande também atrás do dinheiro.

O que diz Flávio Bolsonaro: o candidato defende o confronto armado com criminosos e pediu ao mercado ajuda para sufocar financeiramente as facções. Sobre as prisões de Canella e Bacellar, disse ter sido surpreendido, que os acusados têm direito à defesa e que quem tiver ligação comprovada com PCC ou CV deve pagar “dentro da lei”.

No dia 25 de outubro, a direita escolhe que símbolo leva para os próximos quatro anos. O fuzil apontado para a favela é fácil de vender em vídeo. O auditor da Receita na porta da fintech dá menos curtidas, mas é ele que derruba a facção. Quem confunde as duas coisas não é a direita que nós defendemos.

Fontes