Flávio pede ajuda à Faria Lima e promete criminoso "abatido" na favela
Opinião: quem defende a polícia sabe que o crime se vence seguindo o dinheiro; Flávio reserva o fuzil para a favela e só um pedido educado ao mercado.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Brasil Profundo.

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, aprendemos uma lição com o combate à corrupção: o crime se vence seguindo o dinheiro. Flávio Bolsonaro parece ter aprendido outra. Para a favela, o plano dele reserva o fuzil. Para a Faria Lima, um pedido educado.
O plano registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) prevê que o criminoso armado com fuzil seja “abatido”. Promete cinco presídios gigantes de segurança máxima e declarar PCC, CV e milícias como “narcoterroristas”, segundo o SBT News. É linguagem de guerra, e a guerra tem endereço: o morro.
Em 18 de junho de 2026, Flávio foi à Faria Lima, o coração financeiro de São Paulo. Pediu ao mercado que ajudasse a sufocar financeiramente os grupos narcoterroristas. Não apresentou nenhuma medida concreta de fiscalização sobre o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a Receita ou as fintechs, segundo a Gazeta do Povo. Quem falou em mirar fintechs de fachada foi o aliado Derrite, não o plano.
Onde o dinheiro do crime mora
Não é por falta de exemplo. Em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto cumpriu mais de 350 mandados em oito estados. Segundo o Poder360, mais de mil postos de combustível movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Uma fintech que funcionava como “banco paralelo” movimentou mais de R$ 46 bilhões.
O dinheiro do PCC não está escondido debaixo do colchão de um barraco. Está em fundos, fintechs e postos de gasolina com CNPJ. Quem quer combater facção de verdade precisa ir até lá, com auditor, delegado e quebra de sigilo.
É justo dizer que nenhuma reportagem liga o dinheiro de Flávio ao PCC. Ninguém aqui afirma isso. O problema é de ênfase: para o crime de chinelo, abate; para o crime de terno, cooperação voluntária.
Os aliados que a PF prendeu
A ênfase fica mais desconfortável quando se olha para os aliados. Em abril de 2026, Flávio deu “apoio integral, 100%” a Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, para o Senado. Canella foi preso pela Polícia Federal (PF) em 15 de outubro. Segundo a PF, ele comandava um grupo que lavou cerca de R$ 7,6 bilhões em postos de combustível, de 2020 a 2026.
Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, era o nome que Flávio apoiava para suceder Cláudio Castro no governo. Segundo o relatório final da PF, relatado pelo Jornal do Brasil, ele exercia a liderança do “núcleo político” do Comando Vermelho. Os advogados dele chamam a acusação de arbitrária.
Nenhum dos dois foi condenado. Mas bandido bom é bandido preso, inclusive quando é aliado. Quem pede o abate na favela não pode pedir paciência para os amigos.
E há o “irmão”. Flávio chamou assim o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a quem pediu US$ 24 milhões para um filme sobre o pai, segundo o Intercept. Por esse caso, Flávio é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF), não réu.
O que nós cobramos
Reconheço o que é justo. Flávio votou a favor do projeto antifacção, aprovado no Senado por 64 a 0 em dezembro de 2025. Não é pouco. Mas um voto unânime não faz de ninguém o candidato da lei e da ordem.
Lei e ordem de verdade não escolhe classe social. Rastreia munição, segue o dinheiro e prende o chefe, more ele no morro ou na cobertura. O que Flávio oferece é o contrário: duro na favela, vago na Faria Lima.
Não peço a ninguém que goste de Lula. Peço que não entregue a bandeira da lei e da ordem a quem só a levanta de um lado da cidade. A direita que defende a polícia merece um candidato que a mande também atrás do dinheiro.
O que diz Flávio Bolsonaro: o candidato defende o confronto armado com criminosos e pediu ao mercado ajuda para sufocar financeiramente as facções. Sobre as prisões de Canella e Bacellar, disse ter sido surpreendido, que os acusados têm direito à defesa e que quem tiver ligação comprovada com PCC ou CV deve pagar “dentro da lei”.
No dia 25 de outubro, a direita escolhe que símbolo leva para os próximos quatro anos. O fuzil apontado para a favela é fácil de vender em vídeo. O auditor da Receita na porta da fintech dá menos curtidas, mas é ele que derruba a facção. Quem confunde as duas coisas não é a direita que nós defendemos.
Fontes
- Segurança pública: veja as propostas de Flávio na íntegra — SBT News
- Flávio mira fintechs de fachada contra crime organizado na Faria Lima — Gazeta do Povo
- Postos, fintechs e portos: saiba quais foram os alvos da PF — Poder360
- Bolsonarista Bacellar atua como liderança do núcleo político do Comando Vermelho, diz PF — JB
- Flávio se diz surpreso com prisão de aliados no RJ: “pagar dentro da lei” — Metrópoles
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro milhões para filme sobre Jair — Intercept
- Veja os senadores que garantiram votação unânime do PL antifacção — Gazeta do Povo



