Como funciona

Corrigir o piso da saúde só pela inflação: o que o SUS arrisca

A equipe de Flávio estudou trocar a arrecadação pela inflação na correção do piso da saúde; ninguém divulgou quanto o SUS perderia, mas a regra explica o risco.

Unidade Básica de Saúde de um andar, pintada de verde-claro, com placa na fachada, carro e moto estacionados na rua de pedras
Unidade Básica de Saúde Jardim Panorâmico, em Ivoti (RS), em março de 2013; postos como este dependem em parte de repasses federais.Foto: Paulo rsmenezes / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0 BR)

Em 7 e 8 de outubro, a Folha de S.Paulo revelou que a equipe econômica de Flávio Bolsonaro estudou corrigir o piso da saúde só pela inflação. Quanto o Sistema Único de Saúde (SUS) perderia com isso? A resposta honesta é que ninguém publicou esse número.

A ideia fazia parte de um pacote de cerca de R$ 250 bilhões em cortes de despesas obrigatórias, perto de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). O pacote seria aprovado numa “Super PEC da Transição”, antes da posse. A parte da saúde nessa conta não foi divulgada.

Sem o número, resta entender a regra. E a regra mostra o tamanho do risco.

Como o piso funciona hoje

O piso da saúde é o valor mínimo que o governo federal é obrigado a gastar no SUS a cada ano. Hoje, ele acompanha a arrecadação. Quando o governo arrecada mais, o piso sobe junto.

A proposta estudada trocaria a arrecadação pela inflação. Na prática, o piso ficaria congelado em termos reais. O valor seria corrigido para não perder poder de compra, mas deixaria de crescer quando a receita crescesse.

Um exemplo com números hipotéticos ajuda. Imagine um piso de R$ 100. Se a arrecadação subir 6% num ano e a inflação for de 4%, a regra atual leva o piso a R$ 106. A regra estudada o levaria a R$ 104. Os R$ 2 de diferença não voltam. E a distância se soma a cada ano em que a receita crescer acima da inflação.

Onde está o dinheiro grande

Uma análise da BBC, publicada em 19 de outubro, ajuda a medir o pacote. Corrigir o salário mínimo só pela inflação economizaria cerca de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões no primeiro ano. Isso é só 6% da meta de R$ 250 bilhões.

O restante, segundo a BBC, teria de vir sobretudo das aposentadorias. Cerca de 70% dos beneficiários do INSS recebem um salário mínimo. O pacote estudado também corrigiria só pela inflação o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. Ou seja, o corte estudado mira a renda de aposentados e os gastos mínimos com saúde e educação ao mesmo tempo.

O que diz a campanha

A campanha nega. Diz que a mudança nos pisos não é sua posição oficial e não está no plano registrado, segundo o Estado de Minas. Em 8 de outubro, Flávio chamou de fake news do PT a história do corte nas aposentadorias, segundo o Poder360. Em 16 de outubro, disse à Globo que não vai mudar a Constituição para alterar os pisos, relatou O Liberal.

O histórico no Senado é parte da conversa. Em 2021, Flávio votou a favor da PEC Emergencial, um pacote de controle de gastos. O fim dos pisos da saúde chegou a estar na discussão, mas foi retirado antes da votação, segundo o Correio Braziliense. Em 2023, ele votou contra o arcabouço fiscal, a regra de gastos do governo Lula.

O risco na ponta

Para o município, o piso não é abstração. É a prefeitura que mantém o posto de saúde, as equipes de saúde da família e boa parte do atendimento básico. Parte importante desse dinheiro chega por repasses federais. Se o piso federal para de crescer, a pressão desce para o caixa municipal. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), central sindical alinhada ao PT, lembra ainda que o plano de Flávio não traz números de investimento em saúde.

O que diz Flávio Bolsonaro: a campanha afirma que mudar os pisos não está no plano e não é sua posição oficial. Em 16 de outubro, o candidato disse à Globo que não vai mudar a Constituição para alterar os pisos de saúde e educação.

O segundo turno é no domingo, 25 de outubro. O número exato da perda nunca foi publicado, mas a lógica da regra está clara. Corrigir o piso só pela inflação significa um SUS que não cresce quando o país cresce. A promessa de não mexer nos pisos foi feita em entrevista. O estudo da equipe foi feito longe das câmeras. O eleitor decide em qual dos dois acreditar.

Fontes