O banco do "irmão" de Flávio: Master, Reag e o dinheiro suspeito
Flávio chamou o dono do Master de 'irmão' e pediu US$ 24 milhões para um filme; a PF o investiga no STF, e a Reag, liquidada pelo BC, nega ligação com o PCC.

Na véspera da prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, em 16 de novembro de 2025, Flávio Bolsonaro mandou a ele uma mensagem de lealdade: “irmão, estou e estarei contigo sempre”. Vorcaro é o dono do Banco Master. E o senador do Rio de Janeiro, hoje candidato à Presidência, foi a esse mesmo banqueiro pedir dinheiro. O pedido era de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — para produzir Dark Horse, um filme sobre o pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo o Intercept, que revelou a negociação, ao menos US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões — foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. O destino era o fundo Havengate, no Texas, administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto. Apurações posteriores rastrearam US$ 12,3 milhões no total.
Investigado no STF
Em 22 de julho de 2026, o ministro André Mendonça abriu inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF). O pedido era da Polícia Federal (PF), com acordo da Procuradoria-Geral da República. Os crimes suspeitos: lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas — o envio de dinheiro ao exterior sem declarar.
Inquérito é a fase de investigação da polícia; ainda não há denúncia nem ação penal. Nesse caso, Flávio é investigado, não réu. Eduardo Bolsonaro também é alvo.
A PF chama de “severa” a divergência contábil apurada: mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil, mas apenas US$ 2,8 milhões constam como retorno documentado. Em 16 de outubro, a polícia pediu mais 90 dias para concluir o trabalho. Ainda não há decisão sobre o pedido.
O caso virou público em 13 de maio de 2026 — e mostrou como Flávio reage diante do escândalo. De manhã, chamou a história de mentira. À noite, confirmou que pediu “patrocínio privado” para um filme privado e negou ter oferecido algo em troca ou usado dinheiro público.
Em 16 de outubro, em plena campanha do segundo turno, ele reafirmou a defesa: o dinheiro era lícito. Seu cargo de senador, disse, não dava vantagem a Vorcaro. E a divergência contábil se explicaria por um contrato não cumprido.
A órbita do Master
O banco do “irmão” não é um banco qualquer nas investigações em andamento. Segundo a Agência Pública, fundos da gestora Reag aparecem em duas apurações ao mesmo tempo. Uma é a Operação Carbono Oculto, que apura a lavagem bilionária atribuída ao PCC no setor de combustíveis; a outra, o caso da fraude apontada contra o Master. O Banco Central liquidou a Reag em janeiro de 2026.
A PF sustenta que fundos da Reag podem ter movido cerca de R$ 250 milhões para o PCC — o que a gestora nega. Manchetes que dizem que o Master “lavou R$ 11,5 bilhões para o PCC” misturam apurações distintas. E o registro é claro em um ponto: nenhuma reportagem liga o dinheiro de Flávio ao PCC. Ele não é acusado nos casos Master e Reag.
O que o registro permite medir é a ênfase. Para as facções armadas, o plano de Flávio é força: criminosos com fuzil “abatidos”, cinco presídios gigantes de segurança máxima, “guerra” ao crime. Para o dinheiro sujo, a resposta foi outra.
Em evento na Faria Lima, o coração financeiro de São Paulo, ele pediu ao mercado que ajudasse a “asfixiar financeiramente” os grupos narcoterroristas. Não apresentou medidas concretas de fiscalização. A síntese que fica é esta: duro na favela, vago na Faria Lima.
O que diz a Reag: a gestora nega que fundos seus tenham movido recursos para o PCC, como sustenta a PF. Foi liquidada pelo Banco Central em janeiro de 2026.
O que diz Flávio Bolsonaro: ele diz que o dinheiro do filme era privado e lícito, que seu mandato de senador não dava vantagem alguma a Vorcaro e que a diferença contábil vem de um contrato não cumprido. No caso Dark Horse, ele é investigado, não réu, e não é acusado nos casos Master e Reag.
No dia 25 de outubro, o eleitor decide se elege um presidente investigado no STF por causa do dinheiro do seu “irmão” banqueiro. A PF segue rastreando dólares até o Texas. Um eventual governo passaria quatro anos explicando Vorcaro. Para o Rio, a pergunta é direta: se a promessa é guerra às facções, por que a Faria Lima fica de fora?
Fontes
- Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro milhões para filme sobre Jair — Intercept
- Flávio confirma pedido de dinheiro a Vorcaro, mas diz que era privado — Poder360
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- Flávio diz que dinheiro de Vorcaro para Dark Horse era lícito e privado — CNN Brasil
- Master: como CPMI do INSS e CPI do crime organizado se conectam — Agência Pública
- PF aponta divergência “severa” entre recursos enviados ao exterior — O Povo/DW
- PF pede prorrogação de inquérito sobre financiamento do Dark Horse — ConJur
- Flávio mira fintechs de fachada contra crime organizado na Faria Lima — Gazeta do Povo



