Opinião

Pacto federativo precisa dar às cidades dinheiro à altura das tarefas

Municípios arrecadaram 7,59% dos tributos do país em 2024, segundo a Receita, mas sustentam posto de saúde, creche, escola e Cras.

OpiniãoEste é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Brasil Profundo.

Prédio baixo de um Centro de Referência de Assistência Social, cercado por árvores, atrás de uma cerca
Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do bairro Aparecidinha, em Sorocaba (SP), em foto de 1.º de setembro de 2025.Foto: Ferik80 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 2024, os municípios arrecadaram 7,59% de todos os tributos cobrados no Brasil. A União ficou com 66,14%, e os estados, com 26,28%. Os números estão no estudo “Carga Tributária no Brasil 2024”, publicado pela Receita Federal.

A fatia é pequena para quem faz tanto. É na prefeitura que o cidadão procura o posto de saúde, a creche, a escola do filho e o Centro de Referência de Assistência Social (Cras). Esta coluna defende que a divisão do dinheiro entre União, estados e municípios seja revista.

O que a Constituição manda as cidades fazerem

O artigo 30 da Constituição dá aos municípios a tarefa de prestar atendimento à saúde da população. Também cabe a eles manter a educação infantil e o ensino fundamental, com ajuda técnica e financeira da União e do estado. A Lei Orgânica da Assistência Social define o Cras como uma “unidade pública municipal”.

As tarefas vêm com pisos de gasto. Cada prefeitura precisa aplicar pelo menos 25% da receita de impostos na educação, pelo artigo 212. Na saúde, o mínimo é de 15%, pela Lei Complementar 141, de 2012. São regras justas, mas pesam mais sobre quem tem o caixa curto.

Por que a conta não fecha

Os impostos próprios das cidades rendem pouco. Em 2024, o Imposto sobre Serviços (ISS) somou 1,19% do Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma das riquezas produzidas no país. O Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) ficou em 0,61% do PIB, segundo a Receita.

O resto chega por repasses. O principal é o Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Ele recebe 25,5% do que a União arrecada com o Imposto de Renda e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). As cidades também ficam com um quarto do ICMS, o imposto estadual sobre mercadorias e serviços.

Com isso, o orçamento de muitas das 5.570 cidades depende de regras escritas em Brasília. Quando a União cria um programa ou um piso salarial nacional, parte da conta cai na folha da prefeitura. A Emenda Constitucional 128, de 2022, tentou frear essa prática. Ela proíbe a lei de impor encargo a outro ente sem indicar a fonte do dinheiro.

O que precisa mudar

Revisar o pacto federativo não significa tirar dinheiro de um ente para dar a outro de uma hora para outra. Significa amarrar cada nova tarefa a uma receita certa e cumprir a regra que já está na Constituição. Também significa dar às prefeituras mais peso nas decisões que mexem nos seus cofres.

Autonomia sem receita é só uma palavra bonita. Uma prefeitura que depende do repasse do mês seguinte não planeja, apenas reage. Quem está perto do problema deve ter meios para resolvê-lo e, em troca, prestar contas ao eleitor que conhece.

O que diz quem discorda: O argumento contrário mais forte é que as cidades exploram pouco o que já têm. Segundo a Receita Federal, o IPTU rendeu só 0,61% do PIB em 2024, e a fatia municipal na arrecadação subiu de 6,71% em 2015 para 7,59% em 2024. Para esse lado, cobrar bem os impostos próprios deve vir antes de pedir mais repasses.

A cobrança do IPTU é, de fato, dever de casa das prefeituras. Mas ela não resolve sozinha uma conta em que as tarefas crescem mais rápido que a receita. A divisão do dinheiro entre os entes vai mudar de novo com a reforma tributária, a partir de 2029. É a hora de o país decidir que quem faz o serviço precisa ter como pagá-lo.

Fontes